FRANCISCO MANUEL DUARTE FERNANDES


Francisco Manuel Duarte Fernandes (por alcunha “Xico do Rego”) é filho de Francisco Alves Fernandes e de Maria da Anunciação Duarte Fernandes. Nasceu a 25 de Março de 1945, na Ericeira. A mãe faleceu quando tinha seis anos. Foi criado pelos avós Celeste Alves Fernandes e Manuel Fernandes na Quinta do Rego, única quinta existente na periferia da Ericeira, propriedade da irmã do seu avô e mulher de José Rego, avós da pintora Paula Rego. Manuel Fernandes foi pescador no arrasto longínquo. Após ter partido as duas pernas, num acidente provocado pelo rebentamento de uma amarra em Cabo Branco, dedicou-se à agricultura na Quinta do Rego, trabalhando para José Rego. Fez a quarta classe na Ericeira com dez anos. Após a escola, foi ajudar o avô na agricultura.

Em 1958, aos treze anos, começou a aprender o ofício de carpinteiro na construção civil, seguindo as pisadas do pai, carpinteiro de profissão. Trabalhou na execução do segundo edifício do Hotel de Turismo da Ericeira, todo construído por operários da Ericeira.

FRANCISCO FERNANDES

Em 10 de Março de 1962, aos 16 anos, a fim de melhorar a vida, ingressou no corpo de Fuzileiros da Marinha, como 2o grumete voluntário, para servir durante quatro anos no activo e até aos 45 de idade na reserva da armada. A sua intenção era prestar serviço como carpinteiro, pois o seu «dom é a carpintaria». Em 8 de Outubro, terminou com sucesso o curso de fuzileiros em Vale do Zebro. Em 19 de Janeiro de 1963, Francisco Fernandes tirou o curso de fuzileiro especial. Em 18 de Fevereiro, partiu para a guerra colonial com destino a Angola, onde permaneceu dois anos em comissão de serviço, tendo sido promovido a 1o grumete em 2 de Setembro do mesmo ano.

Em 3 de Novembro de 1964, o destacamento de Fuzileiros Especiais no 4 foi objecto de uma Menção de Apreço do Comando Naval de Angola, na sequência das operações “Fuso Primeiro” e “Fuso Segundo” no Rio Cuango, em se distinguiu especialmente o agrupamento “Morsa Negra”, a que pertencia Francisco Fernandes, pelo comportamento debaixo de fogo do inimigo com armas automáticas e de morteiro, que atacara de ambas as margens do referido rio.

Em 25 de Fevereiro de 1965, foi condecorado com a medalha Comemorativa das Campanhas do Norte de Angola. A partir da explosão de uma granada, muito perto do local onde se encontrava, passou a ouvir mal.

Em 31 de Março de 1965, após ter sido promovido a marinheiro, desistiu da Marinha, pois o Governo começou continuadamente a enviar os militares do quadro para a guerra colonial. Esta

situação não lhe agradava, pois estava informado sobre a situação política do país, a partir da formação que recebera do seu avô, na Quinta do Rego, onde se iniciara desde miúdo na leitura dos «homens de bigode da Seara Nova». De acordo com informação dada pelos avós, chegaram a realizar-se reuniões políticas clandestinas na quinta, no tempo da Primeira República, pois um dos cunhados do avô pertenceu ao Partido Republicano. Embora reconheça que a Marinha lhe daria possibilidades de voar mais alto, achou que o seu caminho não era por ali.

Em 3 de Janeiro de 1966, foi dos primeiros a sair da Marinha de Guerra sem ter completado os quatro anos.

Em Abril, Francisco Fernandes começou a trabalhar com o pai para a Empresa de Viação Mafrense, como carpinteiro na execução das carroçarias de madeira para camionetas, tendo aí permanecido três anos. Para além do pai, aprendeu carpintaria com Armando Patacas.

Devido ao facto do ordenado na empresa ser pequeno, concorreu com muito sacrifício para a marinha mercante como carpinteiro, o que ao tempo era muito difícil, fosse qual fosse o lugar a que uma pessoa se candidatasse na marinha.

Em 1967, Francisco Fernandes casou com Maria Luísa da Silva Garrido Fernandes, de quem teve o único filho, hoje emigrante em S. Diego, Califórnia.

Em 17 de Julho de 1969, tirou a cédula marítima na Capitania do Porto de Lisboa, sendo inscrito com no 122.145. A partir dessa data, começou a dedicar-se à construção naval. Na marinha mercante, percorreu o mundo quase todo, o que lhe abriu «novos horizontes na cabeça». Navegou pelo norte da Europa e África, desde a costa de Marrocos a Moçambique, na “Sociedade Geral de Comércio Indústria e Transportes, Lda.”, companhia fundada pelo Grupo CUF, em 15 de Julho de 1919.

Embarcou, sempre como carpinteiro, no “Ana Mafalda” (15.05.1969-03.11.1969) e no “Almeirim” (25.11.1969-29.12.1969) ambos pertencentes à “Sociedade Geral”, uma das mais importantes empresas de navegação do país, que em 1972 possuía 57 navios, para além da frota de rebocadores. Em 1972, a “Sociedade Geral, S.G.” foi adquirida pela “Companhia Nacional de Navegação” (CNN) igualmente do Grupo CUF. Em 3 de Maio 1985, no seguimento de várias propostas de reestruturação, a CNN e a “CTM-Companhia de Transportes Marítimos” foram extintas pelo Governo, sendo as suas frotas vendidas em hasta pública. A CTM tinha resultado da fusão da “Companhia Colonial de Navegação” (CCN), fundada em 3 de Julho de 1922, e da “Companhia Insulana de Navegação”, fundada em 13 de Dezembro de 1871. Acabou assim ingloriamente, o grosso da frota mercante nacional.

Em 9 de Fevereiro de 1970, Francisco Fernandes embarcou para a Terra Nova no “Gil Eanes”. Segundo as suas palavras - «Fui ver de facto o que era a pesca do bacalhau». O navio saiu de Lisboa para St. John’s no Canadá. «Tão depressa estávamos no porto como a acompanhar toda a frota. Dávamos água, combustível no alto mar e assistência médica. Também abastecia a lula congelada para isco. O navio tinha três médicos. Os pescadores dos dóris pescavam com “trole” e com azagaia.» De regresso a Lisboa, o “Gil Eanes” trouxe uma carga de batata meio congelada, de Calgary. Desembarcou a 30 de Janeiro de 1971.

Francisco Fernandes voltou a embarcar nos seguintes navios: da “Sociedade Geral” – “Belas” (26.04.1971-19.04.1972), “Nacala” (18.08.1973-22.10.1973), “Quelimane” (02.01.1974- 12.02.1975) e “Braga” (entre 15.06.1975-12.02.1975 e 15.06.1975-06.04.1976 e entre 18.09.1976 e 20.01.1977) e da “Transfruta, Companhia Nacional de Navios Frigoríficos, S.A.R.L.”, associada da CNN – “Frigoártico” (04.04.1977-04.07.1977 e 14.12.1978-26.05.1979) e “Frigoantártico” (02.03.1978-27.07.1978).

Em 16 de Janeiro de 1977, o “Braga” teve um incêndio a bordo seguido de uma violente explosão, quando navegava de S. Tomé para Luanda, do qual resultaram sete feridos e um morto. Os trinta e nove tripulantes, nos quais estava incluído Francisco Fernandes, foram recolhidos em alto mar pelo pesqueiro espanhol “Onubense Quarto” que os transportou para Luanda, onde os feridos foram socorridos. O Braga foi construído em 1947 em Inglaterra. Tinha 7224 toneladas de arqueação, 129,56m de comprimento e 16,39m de boca extrema1.

Os navios frigoríficos transportavam carne congelada da Argentina, de Buenos Aires e de Rosário, e bananas “Chiquita” do Equador, através do Canal do Panamá.

Seguindo a nova vaga de embarques, Francisco rumou a Roterdão, na Holanda. Primeiro, tirou o passaporte. Partiu da Ericeira com “Lapina” (João Franco Leandro) e Victor “Ladrão da Vaca” (Victor Manuel Franco Machado), viajando todos de comboio de Lisboa para Roterdão, viagem que durou três dias. Quando chegou a Roterdão roubaram-lhe a carteira com todo o dinheiro que possuía (6.000$00) do quarto onde dormia. Deixou a carteira debaixo da almofada e foi tomar banho. Quando voltou, verificou que tinha sido roubado. «Fiquei sem pinga de sangue, fui roubado num país estrangeiro o que foi extremamente cruel. Quando ia a caminho da capitania nem o chão via». O “Lapina”, companheiro e amigo, emprestou-lhe dinheiro para poder embarcar e sobreviver. Embarcou em Roterdão num navio alemão destinado à prospeção de jazidas de petróleo. Era um navio de pesca de arrasto adaptado a essas funções. A tripulação era multinacional (holandeses, franceses, cabo-verdianos, portugueses e italianos). O navio dirigiu-se através da costa de África às Ilhas Seicheles e às Maurícias, passando por Madagáscar. Ao dobrar o Cabo da Boa Esperança, o temporal foi tão intenso que prometeu uma vela grande a S. Sebastião no caso de sair são e salvo. Durante a viagem, Francisco Fernandes adoeceu, tendo desembarcado para tratamento nas Ilhas Maurícias. Depois de curado no hospital, regressou de avião a Lisboa.

Voltou novamente à marinha mercante nacional, embarcando pela última vez no “Amarante” da CNN, entre 20 de Maio e 29 de Setembro de 1980.

Francisco Fernandes foi construindo a sua pequena oficina, lentamente, sempre que tirava férias da marinha mercante. Algumas das máquinas e engenhos da oficina foram construídos por si. Aprendeu a arte de construção naval na Lisnave, começando a ter um grande empenho nessa área. Primeiro na carpintaria do interior dos navios. Lentamente, estabeleceu-se na Ericeira.

Francisco Fernandes começou por arranjar, modificar e reparar embarcações de pesca de madeira na Ericeira. Adquiriu assim o gosto pela construção de embarcações de madeira.

No desenho, ferramenta fundamental da construção naval, foi auxiliado por José dos Santos Caré Júnior, que apreciava a sua dedicação à arte e sabia desenho. Foi-lhe fácil absorver os conceitos porque já tinha muita prática dos arranjos. Afirma com profunda convicção – «O verdadeiro carpinteiro construtor naval é aquele que faz o desenho, faz o modelo e leva-o à prática. Esse é que é o verdadeiro construtor naval».

Ao tempo, havia bastante trabalho na vila. Construiu o primeiro barco de raiz, em madeira maciça, para Santos da Costa Gaspar, uma lancha de recreio com cabine. A madeira para os barcos era cortada directamente no pinhal por Ramiro Ascenso, do Sobreiro, que conhecia profundamente essa arte, aprendida com o mestre “Policarpo Velho” (Policarpo Vicente Isaac). Francisco Fernandes aprendeu a reparar e arranjar embarcações de madeira com o mestre “Policarpo Velho”. Foi a olhar para o trabalho feito por mestre Policarpo, que aprendeu a reparar embarcações. Trabalhou também com “Zé Pedro” (José Pedro Gomes Ferreira), serralheiro e mecânico naval jagoz, no assentamento de motores marítimos. «O “Zé Pedro” fazia o alinhamento entre o veio, o hélice e o motor, tanto em terra, como no mar. Foi com ele que aprendi a assentar motores nas lanchas. Deu uma grande contribuição a todos os pescadores da Ericeira. Estava sempre disponível. É um homem a quem praticamente todos os pescadores jagozes devem imenso.» A maior embarcação que construiu foi a “Cândido de Sá”, que ainda hoje opera na Ericeira. A construção de raiz partiu de uma embarcação velha, que nunca soube onde fora adquirida, tendo assumido o compromisso de manter apenas uma das cavernas originais. «Por essa razão, o barco não está a seu gosto, devido ao facto das embarcações da Ericeira necessitarem de bastante potência na água, pois o mar aqui é um bocadinho diferente do resto do país, devendo as mesmas serem construídas através de uma esquadria na caverna mestra, isto é, o bojo deve ser construído a partir de uma esquadria. As embarcações assim construídas suportam muito bem o mar tempestuoso que pode levar a cabine, pode levar certos artigos do convés, mas a embarcação é estanque e permanece a navegar, não se afundando. Como a potência é grande e é praticamente estanque, a embarcação não vai ao fundo».

Na última embarcação, que fez para José Simões Luís, em Setembro de 2012, seguiu o desenho do Mestre José Pardal2, da Assenta.

A antiga lancha à vela da pesca artesanal da Ericeira foi concebida pelo “Pardal da Assenta” para ter mais saída de água, navegando com vela. «Tem a particularidade de ter a popa em coração». Francisco Fernandes, o último representante da construção naval em madeira da Ericeira, construiu até ao presente cinco ou seis embarcações. Já encontrou embarcações construídas por si na Madeira e em Peniche. Por fim cita de memória o dito de um ericeirense, que não quer identificar – «A construção civil é um parente negro da construção naval».

Entrevista feita na sua oficina, na Ericeira, em 29 de Setembro de 2012.


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1 DN de 17.01.1977.

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