JOSÉ PEDRO GOMES FERREIRA


José Pedro Gomes Ferreira nasceu, a 15 de Março de 1919, na Ericeira. É filho de Julião Ferreira, serralheiro estabelecido com oficina na Vila, e de Palmira da Conceição Gomes, doméstica. O casal teve dez filhos – Ernesto Gomes Ferreira (falecido), Maria de Lurdes da Conceição Gomes Ferreira, Maria Amália Gomes Ferreira, José Pedro Gomes Ferreira, Maria José Gomes Ferreira, Maria Filomena Gomes Ferreira, Maria Teresa Gomes Ferreira Oliveira, Maria Gabriela Gomes Ferreira, Maria da Graça Gomes Ferreira e António Louro Gomes Ferreira.


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Respondendo ao pedido para me relatar a sua história de vida, começa por afirmar – «A primeira coisa de que me recordo em pequenino é que fui anjinho nas procissões da Semana Santa e pajem nas Festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré, em 1931, quando já andava na escola.»

José Pedro fez a quarta classe com o Professor Canilho. O exame realizou-se em Mafra. Terminada a instrução primária foi ajudar o pai na oficina.

«Quando eu tinha treze anos apareceu na oficina um senhor que disse ao meu pai – O seu filho é um rapaz esperto. Existem escolas onde se pode aperfeiçoar e onde se aprende tecnicamente e praticamente. Eu sou professor na Escola Industrial Marquês de Pombal e se quiser posso tratar de inscreve-lo na escola. E, foi assim que fui para a Escola Marquês de Pombal.» Fez o curso da Escola em cinco anos.

«Fiz primeiro o curso de serralheiro mecânico e como tinha uma certa inclinação para aquilo fui sempre o melhor da turma. Nesse tempo, quem fizesse vinte e nove valores ao fim dos três períodos escolares tinha o ano ganho. Eu, em dois períodos fiz os três. Tinha sempre catorzes, quinzes, coisa assim. No segundo ano, fiz um trabalho que os mestres acharam muito bom. Poucos faziam aquele trabalho. No terceiro ano, ainda trabalhei na serralharia mecânica, mas já trabalhava na parte automóvel.

No terceiro e no quarto anos, fiz um trabalho que nunca ninguém tinha feito na escola. Era um trabalho de malhetes em ferro que viravam e entravam a noventa graus e tornavam a encaixar perfeitamente. Os mestres diziam que era um trabalho que tinha que ser retirado do programa porque não havia ninguém que fizesse aquilo. Mas, o “Ericeira” fez, o Zé Pedro fez! Mais ninguém fez aquele trabalho. Não era trabalho para se fazer no terceiro e quarto anos.

No quinto ano, trabalhei só na parte automóvel. Tive vários quartos em Lisboa.» Durante a semana vivia num quarto alugado em Lisboa. Regressava à Ericeira aos fins-de-semana. Ao tempo utilizava

os transportes do Miranda, do “Gaspar”1 e do “Sardinha”2. «O Miranda guardava a camionete na nossa oficina estabelecida no terreno onde se situam os actuais Correios.»

Em 1937, aos dezoito anos, após terminar o curso industrial veio trabalhar com o pai até ingressar na tropa aos vinte anos.

Em 1939, assentou praça no Trem Automóvel na Avenida de Berna, em Lisboa. Cumpriu o serviço militar obrigatório durante cerca de dois anos e meio. «Não chegou a três.»

«A minha tropa foi engraçada. Fui para a oficina e caí na asneira de mostrar que sabia umas coisas. Fiz um trabalho de tornearia. Mostrei interesse ao meu chefe em querer ir tirar o curso a Belém para ascender a furriel de modo a não ficar sempre no posto de praça.» O chefe disse-lhe que, por ter o curso industrial não precisava de aprender mais nada, ficaria ali com ele. «Ainda andei nas motas em Lisboa. Durante um ano fui para o quartel em Lisboa de bicicleta. Saía daqui às cinco horas da manhã para estar lá às sete e voltava no mesmo dia.

Uma ocasião, telefonaram a comunicar que o pai tinha partido um braço. Tinha sido apanhado pela correia de um motor, ficando um bocado maltratado. «Disseram-me – Era bom que viesses vê-lo. Pedi ao oficial de dia para ir ver o meu pai de bicicleta dizendo-lhe que ainda voltaria no mesmo dia e que eram cinquenta quilómetros para cada lado. O oficial perguntou-me – Você vai agora fazer isso? Respondi-lhe – Vou sim. Vou ver o meu pai. Fui e voltei.» Passado um tempo, foi mobilizado para a Ilha Terceira como condutor auto.

Nos Açores, na Terceira, sofreu um acidente com uma falha de aço. Perdeu a vista esquerda. «Tive dezassete dias a sofrer no hospital. Eu dizia-lhes que tinha uma falha metida no olho e eles não viam nada. Não tinham meios para retirar a falha. Depois levaram-me para o Hospital em S. Miguel. Fizeram os exames, confirmaram que tinha a falha metida no olho e extraíram-me o olho. Até tive o olho na mão. E, fiquei sem o olho.

Após sair da tropa comecei a trabalhar com um técnico italiano chamado Alberto Parodi, que trabalhava em lacticínios. Veio trabalhar para a fábrica dos queijos do Morgado dos Leitões. Eram necessárias umas máquinas. Eu fiz umas máquinas para a fábrica. Eram doseadores de pasta de queijo. Esse técnico achou que eu trabalhava bem.»

Alberto Parodi saiu da Ericeira e foi para o Norte trabalhar numa fábrica de lacticínios na Quinta da Tapada, em Lousada. «Convidou-me para ir trabalhar com ele. Deixei o Morgado dos Leitões e fui trabalhar com ele. Era uma pessoa que sabia e conhecia. Fui tomar conta das máquinas da quinta – máquinas da fábrica de lacticínios, do tractor antigo “Ford”, com rodas de ferro, das camionetas que iam buscar o leite, dos motores de rega e da central que trabalhava a gás pobre.»

José Pedro trabalhou em Lousada durante cerca de ano e meio. «Foi lá que conheci a rapariga que viria a ser a minha mulher.

A Quinta da Tapada era de gente rica. O proprietário era o Pereira Leite. O filho era doutor, mas era gente leviana. Gastavam tudo. Tinham muitas ideias. Iam todas as noites para o Casino e isso nunca dá resultado. Gastavam muita massa, de maneira que eu disse ao doutor – Sr. doutor vou me embora. Eu não vim para aqui para ganhar dinheiro. Perguntou-me – Mas você não gosta de estar aqui? Respondi-lhe – Eu tive um convite do senhor Parodi e vou trabalhar com ele. Disse-me ainda – Mas o senhor faz aqui muita falta e se é por causa do ordenado eu dobro-lhe o ordenado. Respondi-lhe – Eu não vim para aqui para ganhar dinheiro. Eu não preciso desse dinheiro.» «Depois de sair de Lousada, eu e o Alberto Parodi começámos a fabricar umas máquinas laminadoras para pasta de chocolate. As máquinas tinham uns rolos em granito polido que trabalhavam em sentido contrário, um do outro. Fui trabalhar para o Porto numa transversal da Avenida da Boavista. Tínhamos uma oficina, mas a parte de fundição era feita no Porto.»

A concepção das máquinas laminadoras era da dupla Alberto Parodi/José Pedro. «Fazíamos o que podíamos fazer na oficina. Havia uma casa no Porto, cá em cima, à direita de quem sobe, na Avenida dos Aliados, não me recordo agora do nome, que vendia várias máquinas e passou a vender também a nossa. Durante cerca de um ano produzimos duas máquinas. Entretanto acabou a Guerra de 1945. Os nossos produtos eram pouco vendáveis. Começou outra vez a vir material de fora. Eu regressei à Ericeira, à oficina do meu pai.»

Em 1946, José Pedro casou, em S. João da Madeira, com Fernandina da Silva Bastos Osório, natural da mesma Vila, que conheceu num Verão na Quinta da Tapada. O casal tem quatro filhos – Pedro Fernando Osório Ferreira, frequentou engenharia mecânica no Instituto Superior Técnico, Elsa Maria Osório Ferreira de Sá Caiado, médica, Álvaro Homero Osório Ferreira, arquitecto, e José Julião Osório Ferreira, que seguiu as pisadas do pai, e está hoje ao leme da oficina.

«O meu pai começou com serralharia. Depois meteu mecânica. Comprou muitas máquinas e meteu um mecânico que veio de Viseu. Trabalhou muito para o “Gaspar” e para a “Mafrense”3. Trabalhou também para os belgas que tinham as camionetas que vieram arranjar a estrada da Ericeira para Sintra. Já havia uma estrada, mas era uma estrada para carroças. Os belgas vieram alargar essa via. O meu pai foi sacristão. Acertava e reparava o relógio da torre da Igreja da Misericórdia. O meu pai fez um barracão no pátio para eu poder trabalhar, para receber os carros e poder aí trabalhar.

Em 1945, cheguei a ir a Mafra reparar camionetas do “Sardinha” no tempo da Guerra. No tempo em que as camionetas trabalhavam a gasogénio.

A propriedade onde se situava a oficina do meu pai era da viúva do Carmo. Um dia disse-nos – Como vocês fizeram aqui obras a renda vai ser aumentada. E, aumentaram a renda para o dobro. Tínhamos feito as obras sem autorização.»

José Pedro construiu algumas máquinas laminadores para as olarias da região. Comprava em Lisboa, rolos em aço, rolos das antigas moagens de trigo. Mandava fundir umas peças na Fundição Brunos, em Sacavém, para fazer a adaptação desses rolos. As peças vinham em bruto e tinham que ser desbastadas.

Uma dessas máquinas foi vendida ao “Zé Franco”4. «O “Zé Franco” tinha uma olaria, mas aquilo era tudo muito tosco. Antigamente as pessoas viviam pobres. A sala era numa casa de chão em terra batida. Aquilo era tudo muito rude. Cheguei a dizer-lhe – Com o movimento que você tem, ainda tem uma casa neste estado! Respondeu-me – Nós estamos habituados a isto. O que é que quer? Mais tarde modificou aquilo tudo. Foram duas máquinas para os Grandelas, para o Grandela pai e para o Grandela filho. Fiz uma também para um homem da Achada, mas já não me lembro do nome. Também fiz montagens em moinhos de vento. Fiz várias montagens. Fiz uma em Santa Susana. O dono tinha aquilo numas rodas de madeira que faziam muito barulho. Disse-lhe – Eu vou arranjar um sistema para pôr isto mais silencioso! Fui comprar uns diferenciais de camioneta para aquilo ficar silencioso.

Os Galuchos, em S. João das Lampas, trabalhavam aquilo em madeira. Fazia aquilo de tal maneira que uma vez os Galuchos foram ver um moinho em que eu tinha aplicado os diferenciais e exclamaram – Isto está engraçado! Quem é que fez isto? O dono respondeu-lhes – Isso? Foi o “Zé Pedro da Ericeira”. Afirmaram – Já temos ouvido falar nele, já. Admiraram-se muito. Eles trabalhavam em máquinas agrícolas muito rudes.

Quem deu desenvolvimento aos Galuchos foi um homem que comprou lá fora uma charrua pequena muito rendosa, muito diferente do que havia em Portugal, para trabalhar no jardim. Cá não havia nada daquilo. Um dia o homem veio ter comigo. Queria fazer uma charrua maior para as fazendas da nossa área. Eu fiz umas peças, o serralheiro do Sobreiro fez outras e outro serralheiro, de perto de Alvarinhos, fez as restantes. Os Galuchos viram aquilo. Eram rapazes muito espertos. Eram cinco irmãos, e pensaram – A gente é capaz de fazer alguma coisa com isto. Começaram a encomendar-me algumas peças. Depois foram a uma exposição e começaram a fazer as peças que tinham visto em miniatura. O grande impulso da empresa foi aquela charrua pequena que tinham visto.»

No início da década de 1950, «aos trinta e poucos anos comecei a trabalhar como mecânico e serralheiro naval. Trabalhei em mecânica naval durante mais de quarenta anos. A última vez que fiz um trabalho lá em baixo (na Praia da Ribeira) já tinha oitenta anos.

Uma ocasião, o Manuel Magalhães chamou-me e perguntou-me se eu queria ver o motor da embarcação que não trabalhava.»

Nesse tempo, os motores eram da marca “Alvin” (“Albin”5) de 5 H.P (cavalos). José Pedro começou por reparar os motores das embarcações. Depois passou a fazer a instalação dos próprios motores nas lanchas novas. «O carpinteiro, que fazia o trabalho principal, fazia os fixes, para se aplicar o motor, era o Mestre Policarpo. Posteriormente trabalhei com o Vieira (António Vieira, por alcunha “Chocalho”) e com o “Xico do Rego” (Francisco Manuel Duarte Fernandes). O Vieira assentava as longarinas, aquelas madeiras onde depois ia assentar o motor, para se instalarem os motores. Após instalar o motor fazia primeiro o alinhamento em terra.

O alinhamento fazia-se com uma linha. A linha do motor que vem da cambota tinha que ficar exactamente na linha do veio do hélice. O motor não tinha cardam para variar a velocidade. Tinha que se dar um desconto. Na água aquilo desalinha lentamente, porque o motor é pesado e a embarcação deforma-se ligeiramente. Tem que se ver outra vez o alinhamento dentro de água. Era isso que eu fazia. A manga da linha de veios era assente, em dois moentes, na embarcação. Em dois “pocins”. O de fora não tinha empanque nenhum. Era justo. Para a água não entrar para dentro da embarcação, o de dentro era empancado com pez de louro para fixar a manga à madeira. Utilizava- se pez de louro com um bocadinho de sebo à mistura, para que o pez não ficasse estaladiço. Cheguei a dar assistência a quarenta lanchas. Fazia várias coisas. Fazíamos as ferragens para as novas embarcações que eram feitas na Assenta pelo Mestre Pardal (José da Luz Pardal). Os pescadores encomendavam as embarcações ao Mestre Pardal segundo as suas necessidades. Depois de pronta, a embarcação era transportada de camioneta para a Ericeira. Eu, aqui, assentava o motor. Trabalhei com os “Alvins”, depois com os motores “Petra” (“Petter”6). Quem começou a fornecer os motores “Alvin” foi o “Zé Caré” (José dos Santos Caré Júnior).

O representante nacional dos motores “Petter”, a Casa Pinto Bastos, deu-me o exclusivo da distribuição para a Ericeira. Era eu que fornecia os motores “Petra” aqui. Os motores tinham 3,5 ou 5 H.P. O Pinto Bastos tinha grande confiança em mim. Até aí, esses motores não eram utilizados nas embarcações, pois eram refrigerados a ar. Ao tempo, os motores utilizados no mar eram todos refrigerados a água.

Tive um pescador, que se bem me lembro era o “Estrelim” (Narciso Neto Espada), parece-me que sim, que me fez a seguinte proposta – Eu só compro esse motor, só deixo meter esse motor no barco, nas seguintes condições: eu faço o Verão todo com esse motor e não pago nada. No fim do Verão, o motor é aberto e é observado por um técnico independente, para se ver o seu estado, e se ele disser que o motor está bom, eu pago o motor integralmente. E foi assim. O Arruda (António Arruda) também teve dois motores desses. Assentava e reparava motores de outras marcas – “Albin”, “Solo”, “Karl-Erik”, “Buck”, “Victor”7, “BMC”. Vendi dois motores “BMC” e dois “Thornycroft”.» Assentava os motores e dava assistência técnica tanto no mar como em terra. O representante tinha stock de peças.

«Adaptei um motor de automóvel a gasóleo a uma embarcação do Arruda. Fui com ele comprar um motor BMC à Rua do Alvito, em Lisboa. Apliquei-lhe uma embraiagem que o Arruda já tinha. O Arruda teve o motor a trabalhar uma temporada. Depois vendeu-o para outra embarcação.

Quando os pescadores se queixavam de problemas no mar ia navegar um bocado com eles. Ia dar uma volta no mar com eles. Cheguei a ir a Cascais afinar um motor. Também fui a Peniche assentar um motor a uma embarcação de uma senhora que era médica que também tinha barcos aqui na Ericeira.

Os motores tinham embraiagens próprias, normalmente essas embraiagens tinham rotações reduzidas, porque a velocidade de rotação do motor é muito maior do que a velocidade que se deseja no hélice. Só permitia andar para avante e para ré. Fiz também várias adaptações. Punha motores a gasolina a trabalhar a petróleo. O motor arrancava a gasolina, mas depois de quente passava para petróleo, porque o petróleo era mais barato. Os motores “Alvin” trabalhavam a petróleo. Usavam a mesma técnica.

Os motores a diesel vieram logo a seguir, cerca de dois anos depois. Eu nessa altura já tinha quarenta e tal anos. O Afonso Lucas teve o primeiro motor a diesel na Ericeira. O Afonso tinha três embarcações. Num desses motores8 parti pela primeira vez o braço direito. Parti este braço duas vezes. Também parti o polegar direito a mudar uma correia. Já parti os dedos todos da mão direita. Fiz aparelhagens para içar as redes.» Durante cerca de dois anos e meio, José Pedro fez aladores para barcos de pesca. Comprava a parte hidráulica e fazia os restantes componentes (veios, polis, etc.) do equipamento.

«Um dia, o meu pai soube que o António Carmo tinha vendido uma parte do terreno da família que se prolongava deste a Rua do Paço até ao Hospital, ao Emídio, que foi sócio do Gaspar. Foi ter com ele para saber quanto é que ele queria pela parte que era ocupada pela oficina. Um indivíduo que tinha vindo de França, de Santo Isidoro, chamado Varela, aconselhou-nos a comprar a oficina mesmo sem dinheiro, com dinheiro emprestado, porque dizia – Isto daqui a uns anos valerá muito. O que você comprar hoje por dez contos é bem capaz de vender por vinte. Comprem que eu empresto o dinheiro a juros. Isto fica hipotecado. É bom para vocês, eu ajudo e passo a receber o juro. Tivemos assim um tempo até que os Correios começam a chatear-me para vender a oficina e o terreno, com o argumento de que o meu pai já estava um bocado idoso. Falei com um advogado, a quem fazia uns trabalhos, para ouvir a sua opinião sobre o negócio. Aconselhou-me – Não venda a oficina por menos de mil contos.

Em 1970, após algum tempo de árduas negociações, «a determinada altura vendi a propriedade onde estava a oficina aos Correios. A primeira coisa que fiz foi pagar a quem nos tinha emprestado o dinheiro e desfazer a hipoteca. Com o resto do dinheiro comprei uma propriedade ao pé do cemitério.»

Em 1973, mudou a oficina para o norte, para S. Sebastião. «Fiquei numa propriedade ao lado da Fábrica dos Pirolitos, em frente à taberna do “Zé Rafael”, na Rua do Arrabalde no 17.» A oficina esteve activa na Rua do Arrabalde entre 1973 e 1986.

«Foi nestas instalações que tive a maior quantidade de trabalho. Já havia a garagem de S. Félix e tive que lhes dar trabalho, tal era a quantidade de trabalho que tinha. Aí fui trabalhando e ganhando dinheiro, ganhando dinheiro.»

José Pedro trabalhou para o “Gomes do Hotel” (Raul Duarte Gomes). Fez muitos trabalhos de serralharia para o hotel, incluindo umas portas muito bonitas, que Raul Gomes tinha visto em Lisboa, e candeeiros. Trabalhava também nos carros e na maquinaria do hotel.

Simultaneamente reparava automóveis. O mar dava-me muito trabalho. A minha facturação a determinada altura era 50% do mar e 50% dos automóveis.

José Pedro chegou a ter quatro empregados na oficina. Nessa época, trabalhava-se nove horas por dia. Ao Sábado trabalhava-se só meio dia.

Vendeu motores para as rodas das olarias. Fazia adaptações para as noras que trabalhavam com mulas passarem a trabalhar com motores a gasóleo. «Fiz trabalhos de muita espécie, trabalhei em muita coisa.»

Em 1986, instalou a oficina no prédio onde vive actualmente. «Foi um processo muito difícil porque os serviços industriais não me autorizavam a fazer aqui a oficina. Fartei-me de ir a Lisboa por causa disso. Queriam que eu fizesse uma cave desnivelada em relação ao pavimento da rua com cinco metros de pé direito. Era um problema para os carros entrarem e saírem.»

José Pedro preocupou-se desde jovem com a sua contribuição cívica e associativa para a terra que o viu nascer. Foi constantemente um cidadão interveniente e preocupado com o seu semelhante, principalmente com o operariado e gente de trabalho. É um jagoz maior dos quatro costados. Fica

triste quando recorda a evolução actual da terra. «Construiu-se muito e só se dá importância ao turismo.» A Ericeira era uma terra com uma significativa actividade pesqueira (pesca da lagosta, da sardinha, do peixe-espada), comercial e industrial que com o decorrer dos tempos desapareceu. José Pedro é irmão da Misericórdia e sócio dos Bombeiros. Pertenceu ao executivo da Junta de Freguesia no mandato do Comandante Barros. Foi membro da Acção Católica Operária da Ericeira por iniciativa do Padre Gonçalves, chegando a presidente da Liga Católica. Os membros do grupo reuniam-se todas as quartas-feiras de manhã pelas sete horas para procederem a uma oração na igreja paroquial, posteriormente, no mesmo dia, havia a reunião semanal da instituição. Dedicou muito tempo da sua vida à Acção Católica, exercendo actividade por todo o país. José Pedro é o único elemento vivo do grupo da Acção Católica jagoz. Reformou-se em 2004, após uma longa e intensa vida de trabalho. Passa os dias em casa, cuidadosamente tratado pela mulher, sentado no sofá, a ouvir rádio ou televisão, pois perdeu a visão.


Entrevistas feitas em sua casa, na Ericeira, em 23.11.2012 e 04.01.2013.


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1 “Empresa de Viação Gaspar”.

2 “Empresa de Viação Mafrense” de João Sardinha Dias.

3 “Empresa de Viação Mafrense”.

5 A empresa sueca “Albin Motor” foi fundada em 1899. Fabricava motores marítimos e barcos.

6 A empresa inglesa “J.B. Petter & Sons”, de Yeovil, manteve esta designação entre 1896 e 1910, altura em que passou a chamar-se “Petters Limited”. Em 1986, a “Petters” fundiu-se com a rival “R.A. Lister & Company” passando a designar-se “Lister Petter”. Em 1895, a companhia fabricou o primeiro motor de combustão interna para carros no Reino Unido. Em 1902 produziu o primeiro tractor agrícola.

7 A empresa inglesa “Morton & Weaver” foi fundada em 1904, em Hillfields. Em 1911, passou a designar-se “Coventry-Victor”. Foi fabricante de motores para aviões, motos, carros e barcos. Hoje, existe com a designação de “AN Weaver (Coventry Victor) Ltd.”,mas já não fabrica motores. Dedica-se a fornecer peças para os motores que fabricou no passado.

8 Teve o acidente na embarcação “D. Maria Helena”, de Afonso Lucas, enquanto reparava o motor alemão “Karl-Erik” de 5 e 1/3 H.P.

© ONE, SGPS, 2012