JÚLIO MANUEL LOPES



Júlio Manuel Lopes nasceu, a 8 de Fevereiro de 1950, na Ericeira. É filho de Maria da Conceição Lopes e de pai incógnito. Tem uma irmã e um irmão de diferentes pais. «A minha mãe era deficiente do braço esquerdo, não só, mas fundamentalmente do braço esquerdo.»

Júlio Manuel Lopes

Júlio Lopes nasceu em casa da avó materna Maria Rosa Lopes (por alcunha “Maria Penicheira”). Viveu até aos 25 anos em casa de “Marquinhas de Barros” (Maria da Nazaré Matos Esteves), minha avó paterna.

No Verão de 1960, trabalhou como moço na embarcação “Flor de Santa Marta”1 propriedade de Felisberto Pereira de Matos (por alcunha “Pita Roxa”). «Na época da chaputa e do peixe-espada, os pescadores iam de manhã buscar as redes ao mar, chegavam ainda de manhã, desmalhavam o peixe, consertavam as redes e iam largá-las depois do almoço.» As redes eram feitas de fio de algodão. Entre 1957 e 1963, foi aluno do Centro de Assistência Social da Ericeira (creche).

Em 1961, aos onze anos, começou a lavar pratos no restaurante “Gaivota”. Antes da hora do almoço distribuía postais de propaganda do estabelecimento.

Em 1962, trabalhou na piscina do Hotel de Turismo da Ericeira, como empregado de Henriqueta Gomes, irmã de Raul Duarte Gomes, dono do hotel, vendendo artigos regionais na área da recepção, e batatas fritas e bolos na piscina, aos turistas transportados pela empresa “Claras”.

Nessa qualidade, surge involuntariamente no filme turístico promocional encomendado pela Junta de Turismo da Ericeira, na década de 1960.

Em Maio de 1963, terminou a quarta classe com sucesso. No Verão desse ano, trabalhou como empregado de mesa numa «esplanada inventada na Calçada da Baleia, propriedade de Pedro José Pereira, mais conhecido por “Pedro da Padaria”». Em Outubro, Júlio abriu a “Pastelaria Saloia”, onde hoje é o café “Pólo Norte”, ainda como empregado de “Pedro da Padaria”, que ao fim de cinco anos o incentivou a sair dizendo-lhe que «aquilo não era futuro».

Em Maio de 1968, saiu da “Pastelaria Saloia” e foi trabalhar como pintor na construção civil. Transcorridos cerca de três meses, em Agosto de 1968, Orlando Morais desafiou-o a ingressar no café “Morais”, novamente como empregado de mesa, «já no café novo». Ficou isento do serviço militar obrigatório por ser amparo da mãe.

Júlio Lopes trabalhou no café “Morais” durante nove anos. Saiu definitivamente em 1975. De facto saiu do café ao fim de quatro anos, porque tinha a promessa de ir trabalhar para a ELO, em Mafra, onde era gerente Caissote Rosa, seu amigo, numa máquina que imprimia aerogramas para a tropa. Tal não aconteceu, regressando um mês depois novamente ao café “Morais”. «Embora várias pessoas me dissessem que tinha habilidade para aquilo, pensei sempre em mudar de vida.» Inicialmente, foi para o balcão. Do balcão passou «para os bilhares, na cave, e para a televisão, no primeiro andar, e finalmente para o chamado «“bom”, isto é, ao nível do café principal, porque se faziam mesas, percentagens, trabalhava-se melhor e ganhava-se mais dinheiro.»

Em 1975, foi trabalhar para a empresa “Combel”, de Francisco Alves Gato e da mulher, filha do proprietário da loja “Medeiros”, de Mafra. A loja situava-se onde é hoje a C.G.D. Permaneceu ali cinco anos, saindo quando a mesma fechou em 1979.


No início de 1980, João Mata Longa convidou-o a ir trabalhar para a hotelaria na Suíça, em seu lugar. O emprego foi intermediado por Joaquim Manuel Patacas, porque falava bem francês. Assinou um contrato de sete meses e partiu para Interlaken, no Cantão de Berna.

Em 1 de Janeiro de 1981, entrou, após concurso, para tractorista do “Serviço de Lotas e Vendagens”, cuja delegação ericeirense se situava no edifício da “Casa dos Pescadores”2, no Largo do Prim.

Até Março trabalhou como tractorista. No exercício dessa actividade, teve alguma dificuldade em relacionar-se com os pescadores, em termos de horário, funcionamento da lota, etc.

Em 1 de Fevereiro, casou com Maria da Conceição Pereira Dias Lopes. O casal tem duas filhas, Ana Margarida Dias Lopes, que frequentou o segundo ano de gestão no Instituto Politécnico de Tomar, e Magda Inês Dias Lopes, que trabalha numa empresa pertencente à “Têxtil Manuel Gonçalves”. É, desde Março de 1981, membro da direcção do “Sindipescas” (sindicato).

Júlio Lopes pegava no trabalho às três horas da manhã e largava às nove horas da noite. Tinha meia hora para almoço. O horário era pesado, embora o ordenado não fosse mau. A carga horária foi uma das razões que o levou a sair dos tractores, para além do sistema de trabalho e de um conflito profissional que entretanto surgiu.

Em 1981, o comandante do porto era João Ferreira, natural da Ericeira. O edifício da “Casa dos Pescadores” albergava duas secções – o “Serviço de Lotas e Vendagens” e a “Previdência Social”. A delegada do “Serviço de Lotas e Vendagens”, na Ericeira, era Irene Serra.

A lota funcionava das nove horas da manhã ao meio-dia e das cinco horas da tarde às nove horas da noite e aos Sábados de manhã, entre as nove e as treze. Tinha doze funcionários – três tractoristas, Manuel Cândido (“Patachão”), responsável, Antero, da Carvoeira e Júlio Lopes; uma funcionária de limpeza, Palmira Nascimento; um arrasta, Marcelino da Luz; um pesador, Bernardino Pereira Gonçalves; um caixa, Isabel Maria do Nascimento Pereira; um vendedor de segunda categoria, Marcelo Ferreira Neves; um encarregado geral de exploração e vendedor de primeira categoria, José Manuel Castelo Pereira (por alcunha “Mil Homens”); um funcionário que tomava conta das câmaras frigoríficas, Eduardo Gonçalves; uma contabilista, Lurdes Galrão; e uma delegada, Irene Serra.

Cerca de um mês depois, Isabel Maria passou a funcionária administrativa e entrou para caixa Adelina Valadão. A função do servente de limpeza era lavar as caixas e os utensílios da lota. O arrasta, já tinha alguma responsabilidade, tratava de espalhar, apresentar e entregar o peixe aos compradores.

A lota tinha uma máquina para produzir gelo laminado e duas câmaras frigoríficas para conservação do pescado. De cada vez que a máquina de gelo tinha um problema qualquer, por menor que fosse, vinha um indivíduo de Almada para efectuar a sua reparação, o que se tornou muito caro. As constantes faltas de água que havia na Ericeira nos anos oitenta ajudaram a acabar com a máquina, pois esta trabalhava durante a noite em seco, avariando-se frequentemente e deteriorando-se lentamente. Durante algum tempo, a lota ainda foi comprando barras de gelo. As câmaras frigoríficas também se foram avariando, acabando por serem abatidas. Finalmente foi tudo vendido ao ferro-velho. Hoje, a lota não tem nenhuma estrutura para conservar o peixe.

Segundo Júlio Lopes a situação atingiu este ponto porque «os pescadores jagozes a única coisa que faziam era pescar. Não faziam contas, não entregavam escritas. Era só, venha o dinheiro, troca-se o dinheiro, compra-se tabaco, compra-se vinho, compra-se isto e compra-se aquilo.» Os pescadores não pagavam as puxadas nem a conservação do peixe nas câmaras. Cada barco tinha direito a duas puxadas.

Apesar dos preços irrisórios, quando os pescadores tiveram de começar a pagar o gelo, a conservação do peixe e as puxadas, começaram a reclamar e a fazer exigências. «Hoje, que pagam bem cada puxada e que entraram no esquema, não exigem nada, talvez deste modo justifiquem a candonga. O pescador tem a parte de herói, quando está dentro de água, mas em terra há poucos heróis, com eles no sítio, há poucos, muito poucos.»

Em Abril desse ano, em resultado do conflito, mediado pelo comandante do porto João Ferreira, que envolveu Júlio Lopes e José Mata Longa (por alcunha “Mi”), Júlio Lopes saiu de tratorista, tendo feito um novo contrato, por solicitação da delegada Irene Serra, continuando a laborar na lota, mas agora como servente de limpeza, com ordenado significativamente inferior. Foi a partir desse momento, que começou a tomar gosto pelo trabalho na lota.

Pouco mais tarde, a lota passou a funcionar somente entre Segunda e Sexta-feira, das dez horas da manhã ao meio-dia e das duas horas da tarde às oito da noite. Se entrasse marisco na lota, era vendido às cinco horas da tarde para os compradores não estarem à espera tanto tempo, sendo o leilão de peixe interrompido para se iniciar o leilão de marisco. A balança encerrava às dezanove. «Hoje, não se põe o problema do horário da balança, porque a forma de pescar mudou, já não há lota de manhã, etc.»

A mudança de horário deveu-se a um conflito entre os funcionários da lota e os pescadores, porque, com o horário anterior, os funcionários saíam do trabalho todos os dias, por volta da meia-noite. A resolução do conflito foi tentada através de uma reunião, entre a delegada, o comandante do porto, os pescadores e os funcionários da lota, em que se procurou encontrar um novo horário consensual para todos, promovida por Júlio Lopes, enquanto membro da direcção do sindicato. A reunião foi inconclusiva. Os funcionários da lota levaram aos serviços em Lisboa, o horário que tinham proposto, no qual estava incluído trabalhar ao Sábado. A administração aceitou a proposta e «ainda por cima deu os Sábados». Daí resultou o horário que vigora actualmente.

Em 1982, o director nacional dos “Serviços de Lotas e Vendagens”, comandante da marinha mercante Miranda Gomes, natural de Viana do Castelo, veio em visita à Ericeira.

Júlio Lopes solicitou promoção e aumento de salário, com o apoio da delegada Irene Serra, argumentando que sabia fazer o que os outros faziam na vendagem da lota. Passou assim a arrasta, o degrau seguinte, onde permaneceu até 1983. Trabalhou um ano e tal como arrasta. Entretanto, apercebeu-se do contratempo resultante da entrega não atempada dos dados estatísticos aos serviços centrais pela delegada, que estavam sistematicamente atrasados, porque os dois vendedores que tinham obrigação de elaborar os dados estatísticos achavam que a remuneração que recebiam não era suficiente para o trabalho que tinham. Ofereceu-se para elaborar os dados estatísticos pelo mesmo dinheiro que os dois vendedores recebiam, o que foi aceite por Irene Serra e pelos vendedores. Na primeira semana, teve alguma dificuldade na elaboração da estatística, mas depois encarrilou.

Júlio Lopes desempenha ininterruptamente, desde 1982, funções como eleito autárquico ora na junta ora na assembleia de Freguesia da Ericeira tendo ainda sido eleito para três mandados não contíguos na assembleia municipal de Mafra, sempre como militante do Partido Socialista (PS). Júlio Lopes é militante do PS, desde 1974. Dai em diante, passou a transportar o “bichinho da política”.

Em 1984, um dos vendedores da lota começou a perder a voz, surgindo um lugar de vendedor, por que a venda em lota era feita «à voz, tinha que se cantar». Júlio Lopes candidatou-se por solicitação do director do Serviço de Lotas e Vendagens e da delegada, até porque «reconhece que tem voz e fala sempre alto», condições fundamentais para poder ser vendedor da lota. Deveria permanecer três anos no lugar para ser promovido, mas em 1986 foi promovido a vendedor de segunda categoria, permanecendo no lugar até 1990, ano em que ascendeu a vendedor de primeira categoria.

Em 1986, a lota tinha dezoito funcionários, para servir diariamente cerca de quarenta embarcações de pesca artesanal, que não iam na totalidade ao mar no mesmo dia e, no Verão, mais duas ou três traineiras que vinham vender pescado capturado com covos, que não existia na vila – fanecas, lavagantes, moreias, safios, etc. Os seis tractoristas e o encarregado dos tractores Manuel “Patachão” faziam três turnos de vinte e quatro horas, em grupos de dois, trabalhando com três tractores.

Em 1988, António Florêncio (por alcunha “Nestlé”) era presidente da Junta de Freguesia da Ericeira, eleito pelo PPD. Ao tempo, Júlio Lopes subscreveu uma carta dirigida às autoridades

(Junta, Câmara e Governo) no âmbito da sua actividade político-partidária que chamava a atenção para o dinheiro mal gasto nas obras do molhe então recentemente concluído e que já apresentava fissuras, troços partidos e problemas de resistência marítima. Os pescadores interpretaram esta acção política como uma afronta aos seus interesses.

Na sequência desse acto, um grupo de cidadãos, na sua maioria ligados ao então PPD, mas também ao sindicato dos pescadores da UDP, tiveram uma reunião na junta com o objectivo de participarem de Júlio Lopes aos Serviços da Lota e Vendagem, banindo-o da lota. O grupo elaborou um memorando que levou à Administração dos Serviços da Lota e em que apenas era referia a sua vida pessoal e político-partidária, enquanto cidadão, nunca se referindo ao profissional da lota.

O responsável do pelouro do pessoal dos Serviços da Lota recebeu-os dizendo-lhes que em face do descrito no documento nada poderia fazer porque os serviços não tinham nada a ver com a vida político-partidária do funcionário em causa, cidadão da Ericeira. Recomendou-lhes que se não gostassem do cidadão não falassem com ele, se não gostassem do político não votassem nele, mas enquanto funcionário da lota poderiam regressar seguros de que o mesmo continuaria na lota.

Júlio acentua – «Alguns deles já partiram, e eu cá estou!» É responsável pela lota há dezassete anos, altura em que a lota ficou reduzia a seis trabalhadores. Hoje, a lota tem dois funcionários, Júlio Lopes faz de caixa, vendedor e encarregado. Também faz de pesador, embora o seu posto não inclua essa função. É o último vendedor, natural da Ericeira, que vendeu à voz. Júlio Lopes chegou a anunciar, num leilão da lota, mil talões, como tal cantou mil vezes, a que se deve adicionar as vezes em que foi obrigado a repetir. Agora, vende tudo através do painel por computador com software.

Ainda em 1988, o Serviço de Lotas e Vendagens acabou com o serviço de tractores, entregando-o, sem qualquer custo, incluindo os tractores, a Manuel Patachão, que anteriormente havia sido despedido da lota com justa causa. Saíram da lota seis, sete tractoristas.

Em 1990, o “Serviço de Lotas e Vendagens” foi integrado na “Docapesca, Portos e Lotas”, tendo sido negociado a redução de pessoal.

Solicitei a Júlio Lopes que nos explicasse o funcionamento e evolução da actividade da lota. Antigamente havia uma sirene que tocava às cinco horas da tarde. Os compradores sabiam que a lota começaria tinta minutos após o toque da sirene. A sirene deixou de tocar quando entrou em vigor o horário actual.

Presentemente, a actividade de venda na lota é reduzida, pelo que Júlio Lopes avisa os potenciais compradores da realização do leilão, pelo telefone. A lota começa às quinze horas e trinta minutos, haja o que houver.

A vendagem na lota é feita em função da pesagem. A cada pesagem atribui-se um número. O pescador escolhe o peixe que envia para a lota, «o peixe já vem mais ou menos escolhido lá de baixo. Antigamente era a granel. Tirava-se só o que estava mordido para o lado. Hoje, por causa da preservação das espécies, tem de se levar em linha de conta a medida dos peixes. Não se podem pesar peixes imaturos».

Os pescadores chegavam à lota e transferiam o peixe seleccionado por tamanho dos seus recipientes para as caixas da lota. Só podiam vir à lota dois elementos da companha do barco, que colocavam o peixe em cima da balança. O pesador, após efectuar a pesagem, tinha de colocar o talão, em que estava inscrito o nome do barco, a espécie e o peso, junto ao peixe dentro da caixa. O pesador punha no máximo dois talões em cada caixa, o que corresponde a duas pesagens. A numeração do talão começava no primeiro talão disponível do dia. Em seguida, as caixas de cada barco eram rebocadas para a exposição do leilão. Actualmente, uma caixa pode estar associada a um talão ou no máximo a três, dependendo da quantidade de peixe por espécie. Um talão pode, por exemplo, estar associado a um único peixe.

«Na altura (anos 1980), escolhia-se o peixe por tamanho porque, nalgumas espécies, as de maior valor, as mais caras (linguados, pregados, douradas), até certo peso o tamanho tem mais valor.

Por exemplo, se uma dourada tiver 800g tem um valor, se tiver 1,2kg tem outro valor, mas se tiver 3,0kg tem menos valor porque é mais difícil de vender. Uma dourada com 3kg é mais difícil de vender porque os restaurantes compram peixes entre 800g e um quilo e pouco. Por exemplo, os

linguados com 100, 200g têm menos valor, assim como os linguados de um quilo e pouco para cima, a bitola entre 800 e 900g é a que tem mais valor.

Os peixes eram separados por espécies e pela qualidade em caixas, o chamado peixe de primeira e de segunda categoria, em frente do pesador. O peixe de primeira era o que visivelmente não tinha má qualidade nenhuma, tinha escama, tinha vida, tinha tudo. O peixe de segunda estava mordido, já tinha a guelra comida, algum já tinha um ligeiro cheiro.

Havia três tipos de venda, “peixe peixe”, o peixe vendido numa segunda, chamada a boa, que era só para valorizar o peixe, e havia o de segunda sem reclamação, que não estava deteriorado, mas que em relação aos outros dois, era muito inferior. Quem o comprasse sabia o que levava e não podia fazer qualquer reclamação. Hoje, as categorias são iguais, mas há mais rigor na segunda sem reclamação, pois se o peixe tem cheiro já não é vendido.»

O vendedor começava a vender desde o primeiro ao último talão. Quando terminava a venda de um barco, fechava a folha e passava ao talão seguinte, isto é, ao barco seguinte.

A venda em lota através de leilão era feita da seguinte maneira para uma determinada espécie ou lote – Antes de abrir a licitação, o vendedor da lota tinha a responsabilidade de saber o valor da venda (do lote), da espécie em concreto no dia anterior, tendo em consideração o espectro de peso, e de saber quais eram os potenciais compradores interessados, que tinha pela frente, para aquela espécie. A lota pode estar cheia de potenciais compradores, mas, às vezes, só um é que interessa, porque é o único verdadeiramente interessado naquele lote, permitindo que se atinja um valor mais alto para o lote em licitação.

Hoje, isto já não se passa assim porque reside tudo no computador. «O vendedor tinha de começar sempre alto. Uma das regras principais do vendedor é – o comprador não lhe pode tapar a boca, ou seja que quando começa a vender o comprador não o mande parar, se isso acontece é um gesto técnico irregular do vendedor, pois o vendedor não se pode deixar comer pelo comprador.»

O vendedor tem a obrigação de ficar sempre por cima, no caso de o vendedor ter alguma dúvida, deve ter a coragem de voltar a iniciar a venda. «Por exemplo, vendia-se uma determinada espécie e entregava-se ao comprador, mas se durante a licitação, na altura de dar o “chui”, era corriqueiro e ainda hoje acontece, apesar da informatização da lota, surgissem dois, três “chuis” quase ao mesmo tempo, o vendedor tinha que decidir de uma forma responsável, coerente e honesta, a quem atribuir a venda, e não podia abdicar disso, a menos que o vendedor se tivesse apercebido que se enganara. Até porque uma série de pessoas da sua confiança lhe dizem tu estás enganado. O vendedor deve ter a hombridade de reconhecer que se enganou, voltar atrás e vender novamente.»

Uma vez, Júlio Lopes teve um conflito mais complicado. Na altura em que havia mais compradores e «ainda havia algum esquerdismo no ar», uma vendedora julgando que tinha esse direito, afirmou que, para resolver a situação de conflito entre dois “chuis” quase simultâneos, se deveria votar porque havia pessoas a seu favor e outras a favor do outro comprador. «Ao longo da minha experiência de vendagem em lota cheguei à seguinte conclusão – um comprador quando vê preterida a sua compra provavelmente estava distraído, ou o seu parceiro do lado estava distraído, e como queria aquele peixe, mas estava distraído, tem tendência para jogar contra aquele a que não foi atribuído o peixe, para o vendedor se deixar enrolar naquela teia e voltar a pôr o peixe em venda. E, normalmente, quem compra é o tal terceiro comprador que estava interessado, mas que na altura estava distraído». Com o tempo aprendeu a reconhecer bem estas situações, mas «na época ainda era um bocado escuro, virou-se para a senhora e para o encarregado (“Mil Homens”) e disse – Desculpe, mas isto é assim, o peixe é de fulana de tal, não é dessa senhora, ensinaram-se assim, enquanto estou a vender quem manda sou eu, foi assim que aprendi, e não é quem fala mais alto, que tem razão. Eu disse que era para fulana e é para fulana. Ponto final. Isto aqui não é uma democracia. Na altura, fui um bocado grosso, mas a situação deu-me uma certa estaleca e força de pulso e nunca mais tive problema nenhum.»

Hoje, a formação das pessoas que frequentam a lota é diferente. Já não existem as provocações que haviam resultantes das agressões verbais com palavrões. As provocações continuam a existir, mas de forma mais sofisticada. «Nunca tive de chamar a autoridade para resolver qualquer conflito na lota. A autoridade antigamente vinha ajudar o encarregado em situações de conflito. Os cabos de

mar faziam policiamento na lota de forma espontânea. Alguns vinham com avença à hora da pesagem, para impor a ordem na sequência da entrega do peixe na balança.

Um vendedor na lota é mais ou menos como um árbitro de futebol. O árbitro de qualquer modalidade desportiva está no meio de dois interesses contraditórios. O vendedor defende o interesse dos pescadores que é o de vender mais caro e dos compradores que é o de comprar a melhor qualidade ao melhor preço. Antigamente, as caixas eram entregues aos compradores em troca dos talões, agora não, porque há falta de mão-de-obra, os compradores retiram das pilhas, as caixas que lhes pertencem e eles próprios é que conferem o que levam. As eventuais trocas de caixas, que acontecem, de vez em quando, são resolvidas de boa fé, conferindo as folhas de compra dos compradores envolvidos na troca.

Quando Júlio Lopes entrou para a lota vendiam-se as seguintes espécies – linguados, pregados, rodovalhos, robalos, douradas, polvos, lulas, chocos, raias, safios, tremelgas, gorazes, pargos, tamboris, fanecas, carapaus, sardas, cavalas, marmotas, abróteas, pescadas, lagostas, lavagantes, santolas, búzios, navalheiras. «As fanecas, abróteas, polvos vinham nos covos. As douradas e os robalos vinham no aparelho». Os peixes capturados no aparelho valem mais dinheiro.

A partir de 1992, com a criação do IVA, «o marisco a sério desapareceu da lota, na prática deixou de surgir marisco na lota. Já se vendeu algum marisco depois disso, mas só com defeitos.

Hoje, vendem-se as mesmas espécies, com excepção do marisco, do tamboril que desapareceu praticamente, é muito raro aparecer, está quase em extinção, a chaputa não aparece, aparece a corvina, o pargo desapareceu porque entretanto os pescadores deixaram de pescar com linha de mão, isto é, deixaram de ir ao “leijo”. Desde essa altura, para se poder adquirir peixe na lota passou também a ser obrigatório ser colectado nas Finanças.

Na pesca do “leijo” eram capturadas as seguintes espécies – pargos, gorazes, besugos. Às duas da tarde, começávamos a pesar o peixe das redes e dos covos, a partir das cinco da tarde chegava o chamado peixe do “leijo”, razão por que a balança fechava às sete da tarde. Das sete às oito horas éramos obrigados a vender o peixe já pesado. Se fechássemos a balança à hora de encerrar a lota tínhamos de trabalhar até às onze e tal da noite. Houve pescadores que se tentaram aproveitar dessa situação, chegando recorrentemente mais tarde, e dizendo que tinham tido uma avaria».

Júlio percebeu que «era marosca e só pesavam o peixe de quem estivesse dentro da lota até às dezanove horas. Depois dessa hora não entrava ninguém e vendíamos o peixe até as oito e tal. Havia pescadores da Ericeira que, duas, três vezes por ano, no início da Primavera e antes do fim do Verão, com o tempo bom, iam à parceria do safio, isto é, jogavam a meias. Era uma lota cheia de safios. Eram apenas dois barcos.»

As embarcações que praticavam esse tipo de pesca eram a “José Alberto”, de António Inácio (por alcunha “Rodeia”) e a “Melreu3” de Fernando Brites (por alcunha “Moleiro”).

«Como funcionário apanhei aqui lotas cheias de safios provenientes dessa pesca. Os pescadores saíam daqui cerca das três da tarde e chegavam no outro dia cerca das nove da manhã. O tempo de pesca era muito e a lonjura era muita, os barcos não tinham os motores que têm hoje. Pescavam durante a noite.

Quando entrei na lota a quantidade de compradores era mais ou menos a mesma, a quantidade de barcos era muito maior, no entanto hoje apanha-se muito mais peixe. Hoje, há mais artes, há mais dias livres para pescar, a disponibilidade é maior, os barcos não são tão pesados, têm mais mobilidade, as condições melhoraram devido às obras do porto, os barcos têm maior número de artes e de melhor qualidade.

Para provar o que afirma, Júlio avança com os seguintes dados – «No fim de Setembro de 2010, a lota tem mais cento e vinte e cinco mil euros de peixe vendido do que no mesmo período do ano passado, tem mais duas mil e oitenta caixas de peixe vendidas e mais dois mil e tal quilos de peixe vendido. E a fuga à lota, a candonga, é muito maior.»

Na década de 1980, ainda havia guarda-fiscal e só passava fundamentalmente por fora da lota o marisco (lagostas e lavagantes), embora a fuga já fosse um bocadinho maior do que quando andou na praia em miúdo. Os pescadores levavam o marisco escondido. «Hoje não há comparação possível, é um granel, levam marisco à descoberta e o peixe, é mais que muito.»

Em relação aos últimos anos em que «a atitude dos pescadores é igual, temos muito mais dinheiro na lota, o que me leva a concluir, sabendo que há dois ou três barcos que mudaram de mãos e que hoje os mesmos barcos produzem muito mais dinheiro, mais candonga e mais dinheiro, vendem mais peixe em lota, que os novos proprietários trabalham melhor, tiram mais rendimento.

O tempo de pesca era muito menor do que hoje. De Inverno quando o mar permitia iam cerca de vinte e quatro, vinte e cinco barcos ao mar. A lista das embarcações registadas na lota ascendia a quarenta.»

O dinheiro do peixe vendido na lota era entregue aos pescadores à sexta-feira, como ainda hoje é. Mais tarde, passou a ser entregue em cheque ou por transferência bancária. Hoje, não existem talões de pesagem. É tudo processado em folhas de papel e introduzido no computador. Faz-se o leilão através do computador. Depois, o vendedor começa a tirar as facturas. O caixa começa a receber. Há dois tipos de compradores, a crédito e à vista (a cheque e a dinheiro). Os compradores a crédito só podem comprar até ao montante do seu limite de crédito, pois o sistema informático bloqueia automaticamente a venda quando se atinge o limite. O pescador leva para casa o “linguado” que é a folha onde estão registadas e identificadas todas as vendas do seu barco. Em seguida, Júlio faz a parte administrativa.

A lota da Ericeira era uma delegação dos “Serviços de Lota e Vendagem” com competência própria.

Em 1993, passou a posto dependendo de Cascais. Hoje, é um posto da “Docapesca” da Zona Centro (Peniche, Nazaré e Cascais) estando o delegado sedeado em Peniche. A Nazaré não tem nenhum posto, Cascais tem os postos da Ericeira e de Vila Franca de Xira e Peniche tem a Foz do Arelho. Devido ao facto da lota ter sido anteriormente delegação, o posto mantém as mesmas funções e atribuições. Pode aceitar barcos e compradores. Todos os barcos profissionais nacionais podem vender peixe na lota da Ericeira, desde que estejam registados na Direcção Geral das Pescas com no de PRT (Produtor Reconhecido de Portugal).

Em Junho de 2012, os seguros de acidentes no trabalho na pesca, descontados no recibo da lota, variam entre 5-7%. Os arrais descontam a percentagem que querem. As artes não podem ser seguras, apenas se podem segurar as embarcações, embora o seguro não seja obrigatório.

Na Ericeira estão matriculadas vinte e uma embarcações, duas das quais exercem a actividade fora (Peniche, Cascais, etc.). Só dezanove vendem peixe na lota. Existem três barcos matriculados da Assenta que só vendem peixe no Verão. Na lota, o barco paga quatro por cento para a vendagem e dez cêntimos por cada talão.

Os principais compradores de peixe na lota são – Fernando Sobral, «um dos maiores», compra para ele e para a empresa “Pescaviva”, da Igreja Nova, e, mais tarde, para a empresa “Sulmaré”, de Sesimbra, Afonso Capote Bernardes, de Montelavar, Rodrigo Felipe Martins, do Barril, Ana Teixeira (“Russa”), “Manã” (Manuela Alberto António), “Emília do Fiscal” (Maria Emília Cardoso), Carlos do restaurante “Furnas”, «só compra do bom», Fernando Luís Alberto, filho do “Xico Porras”, João Claro do restaurante “César” e “Francismar”, de Cambelas.

Perguntei a Júlio Lopes como é que apreciava a evolução da actividade pesqueira ericeirense ao longo da sua vida profissional na lota. Eis a resposta – «No início da década de 1980, a totalidade da frota pesqueira artesanal não tinha alador. A maioria não tinha radar. Os barcos tinham motores rudimentares. O tempo de pesca no mar era maior. Agora, todos têm alador, sonda electrónica, radar e GPS. Os motores evoluíram. Os pescadores fazem tudo em menos tempo. Usam mais artes. Há muita arte dentro de água. Basicamente as espécies capturadas são as mesmas com excepção do

tamboril, peixe-espada e chaputa que desapareceram da área. O pescador é menos rude. Há menos bebedeiras, não bebem aquelas bebidas pela manhã. A mentalidade é diferente. Hoje, o pescador jagoz é um pescador da CEE. É mais aleitado do que avinhado, mas continua a haver as suas bebedeiras, fortes. Os pescadores trabalham com mais precaução e segurança. Já usam luvas, facto que antigamente era criticado pelos seus pares. Já não existe a questão da vaidade das botas. Os pescadores não descalçavam as botas mesmo quando o mar estava picado e seria recomendado fazê- lo, por que era uma desonra descalçar as botas no mar. Esse problema, hoje já não se põe. Já quase não levam botas para dentro de água.»

Júlio Lopes nos tempos livres dedica-se à “fadestice”, isto é, canta o fado. Foi dirigente do G.D.U.E. durante vinte anos, director dos Bombeiros e mesário da Misericórdia em dois mandados. Lê o jornal todos os dias.


Entrevistas feitas na Ericeira em 19.11.2010 (no café “Joy”) e 15.06.2012.


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1 Em 14 de Março de 1961, Felisberto Pereira de Matos registou com o no E208L a embarcação Flor de Santa marta que encomendara a Policarpo Vicente Isaac. Destinava-se à pesca local. Tinha 2,248T de arqueação bruta e estava equipada com um motor “Lister”.

2 As “Casas dos Pescadores” foram instituídas pelo Estado Novo através da Lei n.o 1.953, de 11 de Março de 1937, e regulamentadas pelo Decreto n.o 27.978, de 2 de Agosto do mesmo ano. Eram coordenadas por uma Junta Central que a partir de 1950 funcionou sob a batuta de Henrique Tenreiro, delegado do Governo de Salazar para as pescas nacionais. Na dependência da Junta Central das Casas dos Pescadores funcionavam vários serviços como previdência social, escolas de pesca, de lotas e vendagem de peixe e de apanha de algas marinhas. Em 1976, foram extintas pelo Decreto-Lei n.o 49, de 20 de Janeiro.

3 A embarcação “Melreu” pertenceu ao Barata do café “Central”, onde Fernando Brites (“Moleiro”) “trabalhou à forra”, chama-se actualmente “Paraíso da Ericeira” e está registada no Clube Naval na pesca turístico desportiva, conhecida por “pesca dos trezentos”. “Trabalhar à forra” significava o seguinte: um determinado investidor sem conhecimento de pesca comprava uma embarcação. O arrais escolhido pelo investidor encarregava-se de exercer a faina da pesca na embarcação até retornar ao investidor o valor correspondente ao custo integral de aquisição da embarcação. A partir desse momento a embarcação passava a ser co-propriedade do investidor e do arrais, que podia optar por pagar 50% ao investidor e passar a ser o único proprietário da embarcação. Em 15 de Junho de 1990, a “Melreu” foi comprada por Maria de Lurdes Martins Fernandes Leite do Carmo, mulher do Barata do café “Central”, a Fernando de Carvalho Oliveira com estaleiro na Nazaré. Estava equipado com um motor Yamaha de 62 H.P. (cavalos) e tinha 6,22T de arqueação bruta.

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