MANUELA ALBERTO ANTÓNIO


Manuela Alberto António (por alcunha “Manã”) nasceu, a 27 de Abril de 1934, na Ericeira. É filha de Felipe António Inácio (por alcunha “Galdera”) e de Emília Franco Alberto. Os pais tiveram onze filhos, tendo atingido nove a idade adulta (Maria Cristina Franco Alberto, António Inácio (“Rodeia”), Francisco Eurico Franco Alberto (“Chico Porras”), Maria Susete Franco Alberto, Laurinda Franco Alberto, Aida Franco Alberto, Ana Franco Alberto e Antónia Franco Alberto). Nunca frequentou a escola. Não sabe ler, nem escrever. 

Manuela começou a trabalhar, desde miúda, a servir em casa da Marquesa de Abrantes, na antiga vivenda Burnay, junto ao Hotel de Turismo. Fazia recados auferindo 5$00/dia. Trabalhou aí até aos nove, dez anos. «O meu pai e a minha mãe eram muito pobres». Em casa dos pais não havia almoço, quando andava «a pedir, de porta a porta, em casa das senhoras, arranjava restos, qualquer coisa. O meu pai ia para o mar, chegava com peixe-espada, e a minha mãe ia vendê-lo.» Quando regressava fazia qualquer coisa. Havia café com açúcar, racionado. A sopa era rara. A mãe fazia sopa de farinha de milho com feijão e hortaliça, que nunca levava azeite. «Era uma tigela de sopa, para cada um».

Em 1943/1944, foi para a creche, saindo aos catorze anos. Foi servir para o hospital, a ganhar 5$00/dia. Aos dezasseis anos começou a vender peixe a pé, descalça, pela Ericeira, com uma canasta, deslocando-se à Achada, Sobreiro e Mafra. Vendia peixe-espada e chaputa. 

Manuela não sabe ler nem escrever, mas para poder vender peixe sabe aritmética elementar na ponta da unha!

Em 1954, aos dezanove anos, nasceu o primeiro filho, João Felipe Franco Alberto (por alcunha “Velho”), filho de Agostinho Carvalho, natural de Lisboa. Foi mãe solteira. Andou sempre descalça até esta idade, altura em que estreou os primeiros sapatos. 

Com cerca de dezanove, vinte anos, antes de se juntar ao homem, que viria a ser o seu marido, e quando a lota se realizava na praia, antes de começar a trabalhar por sua conta, fazia fretes a carregar sardinhas, em caixas, para o mercado, pela rampa acima. O transporte de uma caixa com trinta quilos de sardinha era remunerado a 3$50. O transporte da canasta, com linguados, “abróticas”, fanecas, pregados, rodovalhos, etc., era pago a $15. Fazia fretes por conta das tias Paulina, Manuela e Carolina Franco, irmãs da mãe, e da Catarina (mãe do Pardal e da Saudade), todas vendedoras de peixe na praça. 

Mais tarde, começou a vender lagostas (a 5$00, 7$50 cada) em frente da praça, por conta de “Maria Neves” (Maria Beatriz Dias).

Em 1957, nasceu o segundo filho, Carlos Franco Alberto (“Refilão”), filho de Agostinho Grilo, natural da Areia Branca, Lourinhã. Manuela continuou mãe solteira na venda de peixe. Os dois filhos foram registados com pai incógnito. 

No mesmo ano, casou com Victor Manuel Teixeira, de quem teve seis filhos, tendo atingido a idade adulta – Maria Fernanda Franco Teixeira, empregada num lar, Ana Maria Franco Teixeira, vendedora de peixe com banca no mercado da Ericeira e sucessora da mãe, Eduardo Victor Teixeira, pescador, Henrique Manuel Teixeira, empregado de mesa, e Laurinda Franco Teixeira, comerciante, estabelecida com loja de roupa no Largo dos Navegantes, na Ericeira. Para a cerimónia do casamento, Manuela pediu os sapatos emprestados. O marido era pedreiro. Trabalhou grande parte da sua vida para Manuel Batalha Jacinto, construtor civil e cangalheiro, meu tio materno. 

Em sua casa, à noite, fazia sempre sopa de feijão, utilizava qualquer tipo de feijão, punha todos os legumes (hortaliça, nabos, batata, cebola, cenouras, alhos, tomates), algumas vezes, levava carne. Deixava a sopa feita de véspera para os filhos comerem no dia seguinte. Ao Sábado chegava mais tarde da venda no mercado. A filha mais velha fazia o almoço para a prole. A família comia arroz de tomate, peixe frito, caldeirada, peixe cozido com batatas, caldeirada de bacalhau, bacalhau com massa cortada (macarrão ou “manga de capote”), muita sopa, muita sopa, «gastei arrobas de feijão», enquanto os filhos andavam na escola, havia sempre muita sopa. Aos domingos havia cozido à portuguesa, caldeirada de frango, frango assado ou guisado, bifes com batatas fritas e ovo estrelado. O jantar de consoada era bacalhau cozido com batatas e hortaliça e o almoço de Natal galinha, que comprava na praça. «Comia pouco polvo».

Quando os «filhos estavam doentes, mal da barriga, fazia uma canjinha de borrachinhos», para o que comprava dois ou três borrachos na praça. Fazia também caldos de farinha. «A preparação é simples, cozia-se farinha “Maizena” e água, com uma casquinha de limão, e por cima punha-se um bocadinho de açúcar ou de canela, qualquer coisa». Os filhos, de manhã, comiam pão com manteiga e café com leite e durante o dia comiam muita fruta. Havia sempre muita fruta em casa. Ainda hoje, Manuela gosta de comprar fruta.

Após casar, iniciou a venda de percebes, que adquiria na Ericeira, no Mercado da Ribeira Nova, em Lisboa. O transporte era efectuado por Afonso Lucas ou Raul Gomes. Avançou para o negócio de venda de peixe, que comprava nos armazéns de revenda, na Doca Pesca, em Lisboa, em colaboração com “Manuel Maricas” (Manuel Pitas Pereira). Vendia «carradas de sardinha» da Ericeira, à Climater, armazenista situado na Junqueira, em Lisboa. 

Para poder começar a comprar peixe na lota da Ericeira, solicitou a Elisiário Bernardino que lhe deixasse levar dez peixes-espada sem pagar, pois não tinha dinheiro, prometendo que lhe traria o dinheiro logo que efectuasse o negócio. Elisiário concordou com a proposta. 

Logo que acabou a venda, levou o dinheiro ao Elisiário, que exclamou – «Não era preciso trazeres o dinheiro tão depressa! Tinhas tempo para vir trazer o dinheiro!» 

Elisiário Bernardino comprava o peixe aos pescadores e vendia aos revendedores na lota da Praia da Ribeira. Quando foi instituída a nova lota pelo Estado Novo, Elisiário Bernardino foi obrigado a passar a encarregado da lota. Sucedeu-lhe no lugar José Manuel Castelo Pereira, por alcunha “Mil-Homens”. 

Depois de Elisiário Bernardino ter falecido, Manuela Alberto passou a vender mariscos congelados cozidos à entrada da praça, que eram adquiridos a Júlio Galantim, dono de um restaurante em Setúbal, seu cliente dos percebes da Ericeira, durante cerca de sete ou oito anos. Vendeu também peixe na rua, «à beira da estrada». Desabafando – «E foi assim a minha vida.» 

O peixe era adquirido na lota em Peniche. Manuela deslocava-se na carrinha de Afonso Lucas com várias colegas – “Ti” Alzira, “Ti” Eva Raposo, “Tina” (Joaquina do Carmo Serra) e Zinda (filha de Maria da Conceição Janeira). Quando se deslocava à boleia, vinha e ia com a “Madalena da Assenta”.  

Manuela vendeu peixe no mercado da feira da Malveira, às quintas-feiras, durante cerca de trinta anos, enquanto empregada de “Manuel Maricas”. No início, começou a ganhar 100$00/dia. Vendia «toda a qualidade de peixe» – pargos, safios, raias, pescadas, linguados, polvos, miôtos, que «agora já não há», peixe-espada, chaputa, «cação branco grande, com pintinhas em cima, cação nosso, cá da Ericeira», etc. Mais tarde, passou a vender peixe por sua conta.

Quando lhe solicitei para caracterizar em pormenor o cação branco afirmou – «Todos os peixes da família dos tubarões esfolados, sem pele, são designados e vendidos como cação na Ericeira, incluindo a tintureira». 

Com cerca de quarenta anos, Manuela Alberto licitou a banca na praça, por 34.500$00/ano, na Câmara de Mafra, em leilão. Só a conseguiu à segunda tentativa. O negócio da venda de peixe na mesa do mercado era «a meias» com Adelina Bernardes Carramona, sendo o acordo oral. Venderam juntas, no mercado, durante trinta e um anos. 

Na banca, Manuela vendia peixes «muito de tudo, à base de caldeirada» – safios, cação, raia, pata-roxa, «tudo à base de caldeirada» e sardinhas. Sabia arranjar bem todo o peixe de caldeirada. Não gostava de vender peixe de escama. Comprava os peixes nas lotas da Ericeira, de Peniche e de Cascais. 

Em 1975, Manuela e Victor adoptaram Sandra Isabel Alberto Teixeira como filha. Depois de se aconselhar com o marido e com o seu acordo resolveu ficar com a menina. Foi à polícia declarar que tinha a bebé em casa. 

Na polícia disseram-lhe que se quisesse entregar a criança a uma instituição oficial, ficaria desde logo ali, se desejasse ficar com ela teriam de levantar um auto e enviar o mesmo para tribunal. Durante mais de um ano prestou várias vezes declarações em tribunal com o objectivo de poder adoptar a criança. Em tribunal declarou, no processo de adopção, que tinha achado a menina no recanto da entrada da sua casa e não sabia como é que ela tinha ido ali parar, desconhecendo igualmente a família da criança. Por fim confessa – «Criei-a como um filho, igual aos outros.» 

Manuela deixou a mesa na praça, em 2012, quando adoeceu. Hoje, encontra-se reformada e doente.


O receituário:


Receita da caldeirada – Dispõem-se os alimentos em camadas, num tacho grande, para dez ou quinze pessoas. Primeiro colocava uma camada de cebola às rodelas (1,5-2kg), depois uma camada de tomate aos pedaços, «para aí 1kg de tomate maduro, não pode ser verde», uma camada de batata às rodelas. Depois metia os ingredientes todos – louro, cabeça de alho, dois ou três pimentos, meio litro de vinho branco, dois bocadinhos «de piripiri, mesmo piripiri em grão», azeite e por fim a camada de peixe e sal – primeiro o tamboril, «se não levar também não interessa nada, raia sem pele, safio, a cabeça não, só as postas do meio, o resto do rabo vai para fritar, ou qualquer coisa assim, um bocado de tintureira esfolada ou de cação esfolado, duas ou três patas-roxas e fígado de tremelga, gosto mais do fígado da tremelga. Fica um espetáculo!» Não gosta do tamboril, acha que o tamboril deixa muita água na caldeirada, não sabe porquê. 

A caldeirada nunca pega no fundo porque utiliza a seguinte técnica de cozedura: «No fogão, com o tacho ao lume, primeiro, alteia em alto grande, cinco minutos em alto, quando tiver quase a levantar a fervura, baixa-se e coze devagarinho. Vai puxando, vai puxando.» Com esta técnica faz também caldeirada de frango.


Preparação da canêja de infundice – Caracterização da canêja – «A canêja, é canêja, tem a cabeça redondinha e dentes muito pequeninos. É a canêja que a gente cá usa. 

Eu faço assim a canêja: Arranjo a canêja, corto à posta, fica toda inteira, não aproveito nem a cabeça nem o rabo. Depois vai tudo raspado, todo aquele sangue, que tem por dentro. Tem que ficar tudo branquinho. Tira-se tudo, tudo, tudo, não fica lá migalha, e tem que ficar aí duas horas a escorrer aquela “aguadilha”. Pego num pano, uma toalha turca, tem que ser um pano branco, tem que ser tudo limpinho, eu gosto de turco, embrulho posta a posta. Depois, pego noutra toalha e meto tudo enrolado naquele turco, em seguida embrulho em jornais, uma mão cheia jornais, e enfio tudo dentro de um saco de plástico. Dou um nó e meto dentro de um balde limpo, num sítio onde não haja moscas ou dentro de um “pial” onde não deite cheiro em casa. Ao fim de dois ou três dias, tiro aquilo tudo de dentro e vou ver como é que está. Se tem “lazia”, se está rija, se está à minha maneira. Depois, torno a embrulhar tudo limpinho e fica quinze dias a curtir. Nunca ponho sal na canêja, nenhum, nenhum, e nunca estraguei. Antes de cozer, lavo a canêja em água do mar. Quando o mar está bravo lavo em água com moura, e depois cozo com batatas e como só com azeitinho bom. Não uso vinagre. Bebe-se vinho tinto, para ficarmos tonteadas, para a cadela, já se sabe!» 

Tinha por hábito preparar a canêja para os clientes na praça. «Arranjei muita canêja para o “Necas Gaspar” (António da Costa Gaspar), para a “Casa da Vaca”. Muita, muita, arranjei muita! Fui eu que ensinei o António Caré a preparar a canêja, quando deixei de a poder preparar». 


Sardinhas “esconchadas” – «O ano passado ainda arranjei cem sardinhas “esconchadas” para a “Casa da Vaca”. Dá muito trabalho! Preparam-se assim – Tira-se a cabeça, tira-se tudo, tira-se aquela barriga toda, por aí fora. Fica só o lombo. Tira-se a escama toda, bem escamadinha. Limpa-se bem. A sardinha fica acamada de sal durante um dia. 

No dia seguinte, de manhã, põe-se de molho e coze-se ao meio-dia. Serve-se cozida com batatas e cebola cozida e crua às rodelas. Tempera-se com azeite. E tive um grande elogio da “Casa da Vaca”!»


Carapaus “alimados” – «Era só cá em casa para mim, os filhos não gostavam. Comia raramente». Salpicava os carapaus de sal e deixava tomar o sal durante meia hora, uma hora. Chegava a casa, tirava a pele, cabeça e tudo, cozia em água e sal, e depois metia dentro de uma travessa com alho picado e azeite. Ficam todos inteirinhos. «Era tão bom!» 


Sarda escalada – Escalava a sarda, «de alto, a baixo». «Ficava com a cabeça, pois gostava muito da cabeça. Bem limpa e bem sangrada, até ficar branquinha. Depois ficava acasalada uma na outra, em sal». 

No dia seguinte, punha de molho e cozia com batatas e cebola. Temperava com azeite. «Dá um cheirinho que até “ressoma”! Mas agora não há sarda, há só cavala preta. Não gosto de cavala. A cavala não dá.» 


Peixe frito (pescadinhas de rabo na boca, cachuchos, carapaus, sardinhas, «aproveita-se tudo o que há.») – «Estive agora a fritar.» Salpica-se o peixe, passa-se por farinha de milho e frita-se em óleo. Acompanha com arroz de tomate, arroz de feijão ou batata cozida. 


Arroz de feijão vermelho – Faz um refogado com cebola e azeite e uma folha de louro. Quando acrescenta o arroz, o feijão à água coloca muitos dentes de alho cortados às rodelas e têmpera com sal a gosto. O arroz é seco.


Filhoses – Comprava a farinha no moleiro, no moinho do Alto da Forca. Amassava a farinha à mão com um bocado de fermento em água morna, punha um bocadinho de sal, deixava levedar uma hora ou duas. Depois, começava a fritar as filhoses em óleo. As filhoses, assim que acabavam de fritar, eram embrulhadas em açúcar e canela. Era a riqueza, punha-se numa travessa. Era o único doce que sabia confecionar. Comia poucos doces. Os filhos ainda hoje gostam pouco de doces, pois foram habituados assim.


Massada de peixe – «Massada de peixe é assim: faço o refogado bom, leva tomate, cebola, pimento, alho, azeite e louro. Depois meto o peixe e a massa (cotovelos) tudo junto ao mesmo tempo.» 


Maria Fernanda – A minha mãe tinha uma coisa boa, sempre usou muito pouco sal na comida, usava muitas ervas, hortelã, coentros, salsa, muito alho, muito louro, incluindo na massada, punha em tudo. Ainda hoje, todos nós gostamos do comer insonso. No fim da caldeirada ou da massada, a minha mãe fazia uma sopa, com massa de cotovelinhos pequeninos. Punha meia colher de sopa de vinagre na sopa, antes de a servir. 



Entrevista feita na sua confortável casa, na Ericeira, em 26.09.2012, na presença da filha Maria Fernanda, e em 24.10.2012.

Francisco Esteves, Novembro de 2012.


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