O OURIÇO

Discoteca (ou "boite") Ouriço 

A Face Oculta da Ericeira.

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Em Junho de 1960, Afonso Lucas, ilustre advogado lisboeta, morador na Avenida da República, com escritório na Rua do Alecrim, e ao tempo Presidente da Junta de Turismo da Ericeira, convidou Carlos Gil de Sousa (‘Carlos da Cilita’) para sócio fundador da ‘Ouriço, Sociedade de Restaurantes da Ericeira, Lda.’, empresa que se propunha abrir o restaurante, ‘boite’ e discoteca ‘Ouriço’, na Ericeira. Como ‘Carlos da Cilita’ tinha dúvidas sobre a viabilidade do projecto, declinou o convite aceitando no entanto a proposta para ficar como gerente do estabelecimento. 

‘Carlos da Cilita’ começou a trabalhar para a empresa em Junho de 1960, tendo acompanhado o desenvolvimento das obras de adaptação e decoração. 

Carlos Gil de Sousa, conhecido na Ericeira por ‘Carlos da Cilita’ (diminutivo do nome da sua mulher), nasceu a 2 de Janeiro de 1935, em Moinhos de Caravide, Leiria. Antes de ingressar no serviço militar, trabalhou, como ajudante de recepcionista, no Hotel das Termas de Monte Real, Leiria, onde adquiriu algum conhecimento sobre o ramo de hotelaria. 

Em 1956, ingressou na tropa em Sacavém. Durante o serviço militar trabalhou na Messe de Oficiais. Ainda na tropa conheceu um rapaz que prestava serviços de hotelaria, aos fins-de-semana, no Hotel de Turismo da Ericeira. A convite desse colega, começou também a prestar serviços no Hotel da Ericeira, gostou da terra e acabou por se fixar na vila. Já na Ericeira, e ao serviço do Hotel de Turismo, adquiriu a Carteira Profissional de 1ª classe.

O edifício onde se encontra instalado o ‘Ouriço’ era propriedade José Anselmo Barros, tio do Comandante Barros, continuando hoje na posse da família. Foi casa de habitação do Garamanha Velho (Francisco Garamanha), pai do José Garamanha e avô do Henrique Garamanha, anteriormente servira como armazém de redes. 

A ideia e concepção do projecto foram de Afonso Lucas. A empresa, ‘Ouriço, Sociedade de Restaurantes da Ericeira, Lda.’, foi fundada por três sócios: Afonso Lucas, Ernesto António Maria Martorell Calderó (1921-1985), conhecido por Ernesto Martorell, industrial e corredor de automóveis, e Durães Matos Chaves, arquitecto e funcionário da Câmara Municipal de Lisboa. 

A decoração esteve a cargo de Durães Matos Chaves. O esqueleto de peixe que decora a parede é obra sua.

O ‘Ouriço’ abriu as portas ao público em 5 de Agosto de 1960. Foi a primeira ‘boite’ discoteca a abrir em Portugal. 

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Na década de 1960, a actual estrada marginal, em frente ao ‘Ouriço’, não existia, o caminho era de terra batida, não circulando automóveis. A estrada foi mandada construir, mais tarde, por Afonso Lucas enquanto presidente da Junta de Turismo da Ericeira.

O restaurante discoteca começou a trabalhar com uma cozinheira, de Lisboa, duas ajudantes de cozinha e dois empregados de mesa (O Srs. Armando e Albino Lucas Freire, este último primo de Frederico Freire). 

O cardápio era relativamente reduzido sendo constituído pelos seguintes pratos: Bacalhau à Império [bacalhau de posta alta, cortado em três pedaços e ‘ensanduichado’ com rodelas de tomate e de cebola, que depois era passado pela frigideira, em azeite, e acolitado com batatas cozidas e gratinadas (tostadas) na caçarola], que mais tarde foi substituído pelo Bacalhau à Ouriço (bacalhau alto seco desfiado, muito fininho, refogado em azeite, cebola e pimenta branca a que se adicionam batatas palha fritas e ovos. Para preparar os ovos separam-se as gemas das claras e batem-se estas últimas em castelo. Adicionam-se as gemas e só depois é que se adiciona esta mistura ao bacalhau e às batatas. O tempo de cozedura deve ser curto para que os ovos não cozam demasiado e permaneçam fofos. Apresenta-se na mesa polvilhado com salsa picada); Escalopes ao Madeira; Linguado grelhado e ao ‘Meunier’; Bife à Ouriço (bife do pojadouro, cortado ao contrário do veio da carne, com molho de natas e leite, acolitado por batatas fritas); Frango Frito; Açorda de Lagosta, polvilhada com salsa; Lulas à Caminho Novo [lulas estufadas com molho especial (natas) acolitadas por arroz branco]; e Amêijoas ao natural e à Bolhão Pato. As iguarias eram servidas em caçarolas de barro.

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Em 1960, o ‘Ouriço’ esteve aberto, durante os meses de Agosto e de Setembro, apenas como restaurante. O horário estendia-se das 19h às 3h da madrugada. Em 1961, abriu entre Maio e Setembro, como restaurante e discoteca. Durante Maio e Junho, o horário cumpria-se entre as 19h e as 3h da manhã. Nos meses de Julho a Setembro funcionava entre as 13h e as 3h, servindo igualmente alguns almoços.

No início da década de 1960, a música era reproduzida através de uma grafonola em séries de 10 discos EP de vinil. Apenas se podiam reproduzir novos discos, após terminar cada uma das séries. Nessa época havia ‘Noites de Fado’ em que Amália Rodrigues cantava acompanhada à viola pelo ‘Chico Gato’. 

A música ambiente era de Charles Aznavour, Frank Sinatra, Gilbert Beaucoup, Art Sullivan, Adamo, Johnny Halliday, Françoise Hardy, etc. Entre meados e final da década, foi introduzida a música dos Beatles, Rolling Stones, Mamas and Papas, Los Bravos, Scott Mackenzie, etc.

Em 1967/1968 foram instalados dois gira-discos (ELAC) e um amplificador (TEAC) com duas colunas grandes de som. Mais tarde, surgiram a bola, a ‘strobe-light’ e as luzes ultravioletas. 

No início, o ‘Ouriço’ fazia serviços ligeiros de restaurante, sob encomenda, para uma clientela seleccionada, brasonada e endinheirada em grupos de cerca de trinta pessoas. 

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Entre os clientes assíduos, dessa época, encontrava-se o Rei Umberto II de Itália, no exílio, a Condessa de Paris, Isabel Maria Amélia Luísa Vitória Teresa Joana Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança e Dobrzensky de Dobrzenicz, no exílio, Ernesto Martorell, Matos Chaves, funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Estrela Peralta, médico na Ericeira, Joaquim Moreira da Silva Cunha, ministro do Estado Novo e grande amigo da Ericeira, Francisco Casal Ribeiro, deputado da União Nacional à Assembleia Nacional, presidente da Cidla e grande amigo da Ericeira, Manuel Cota Agostinho Dias, ministro do Estado Novo e grande amigo da Ericeira, Luís Felipe Nogueira, José Cardoso Pires (em Setembro), Manuel Burnay, Milo MacMahon, do ‘Duo Ouro Negro’, membros das família Muller e d’Orey, Sargento Amaral, de Mafra (falava francês, inglês e alemão), Luís ‘da Sueca’, Mário Patadas, Mário Sá, Luís Pessoa, Fernando Lourenço, da Malveira, e alguns jagoses mais abastados e cosmopolitas, Francisco José Valverde, António Papum (António Florêncio Baptista Neto, barbeiro e célebre frequentador da noite e das ‘bifas’ do hotel, e barbeiro particular de Raul Duarte Gomes), João da Micaela, José António da Micaela (irmão do anterior), João Manuel (‘Tá Névoa’), Alberto Felipe Duarte Galrão, Augusto Gervásio, Carlos Alberto (Cabé), Amílcar Lino, etc. O pessoal da Ericeira acarreava as ‘bifas’ do Hotel ‘Pedro, O Pescador’ e do Hotel de Turismo para a discoteca.

Ernesto Martorrel era casado com a irmã da Condessa de Paris, Teresa Maria Teodora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orleans e Bragança, e reservava muitas vezes a discoteca para festas privadas de um pequeno grupo de amigos. Os jantares realizados nos aniversários do Dr. Manuel Peralta (em Fevereiro) e do Rei Humberto II (a 15 de Setembro) constituíram durante anos dois acontecimentos marcantes.

Ernesto Martorell saiu da sociedade ao fim do primeiro ano. No ano seguinte saiu Matos Chaves.

Em 1963, quando Afonso Lucas era o único dono, ‘Carlos da Cilita’ foi novamente abordado para sócio com metade da quota, tendo desta vez aceite o convite. 

Até 1967, a sociedade pertenceu a Afonso Lucas (50%) e ‘Carlos da Cilita’ (50%). Em Julho desse ano, Frederico Freire entrou para o ‘Ouriço’ como principiante de barman. 

Em 1968/1969, ‘Carlos da Cilita’ queria sair, pois pretendia dedicar-se a tempo inteiro ao seu estabelecimento comercial do Jogo da Bola, pedindo um determinado valor pela sua quota a Afonso Lucas, este por sua vez respondeu-lhe que por esse valor vendia a sua quota. Deste modo, Carlos e a mulher, Cilita, ficaram donos da empresa.

Frederico António Freire nasceu, em Fonte Boa dos Nabos, a 21 de Fevereiro de 1950. É filho de Frederico Gervásio Freitas, natural da Ericeira, e de Franquelina da Luz Freire, de Fonte Boa dos Nabos. O pai pertencia à família ericeirense dos ‘Cantarrinchas’. Foi membro da Assembleia da Junta de Freguesia da Ericeira, Vogal da Junta de Turismo da Ericeira e fundador da Associação de Caçadores da Carvoeira e Ericeira. Nos tempos livres caça, joga golfe, cozinha e atira aos partos. É autor do livro ‘Cozinha Saloia’ publicado pela Editora Acontecimento, em 1998. 

Em 1969, Frederico embarcou no navio ‘Belas’, da Sociedade Geral, que efectuava carreiras entre a África Ocidental Portuguesa e a Europa do Norte. 

No Verão desse ano, fez a época balnear no ‘Ouriço’. No Inverno, embarcou no ‘Príncipe Perfeito’, navio de passageiros da Companhia Nacional de Navegação, com o Comandante Paulino e com o Despenseiro Leitão, natural da Ericeira.

Em 1970, desembarcou e fez novamente a época de Verão no ‘Ouriço’. Em 18 de Outubro de 1971, Frederico assentou praça. Tirou a especialidade de radiotelegrafista, no Porto. Entre 1967 e 1974 fez todas as épocas balneares no ‘Ouriço’. Em 1974, saiu da tropa, casou, a 3 de Novembro, e foi abrir como sócio a ‘Cervejaria Bonfim’, sita na Rua Miguel Bombarda, no Barreiro. Frederico Freire fez formação profissional, possuindo a Carteira Profissional de 1ª classe.

‘Carlos da Cilita’ trabalhou no ‘Ouriço’ até ao Verão de 1972. Até aí, o ‘Ouriço’ serviu refeições simples. Eram servidas poucas refeições, pois nunca foi um restaurante no sentido convencional do termo, funcionando quase como um clube privado. No Inverno desse ano, ‘Carlos da Cilita’ alugou a exploração do ‘Ouriço’ a uma sociedade constituída por Gabriel Henrique Campos, empregado de mesa no ‘Café Morais’, José Carneiro Moreira, dono do restaurante ‘A Parreirinha’, e Manuel Dias dos Santos, empregado de mesa no restaurante ‘Galeão’. 

Esta sociedade esteve à frente dos destinos do ‘Ouriço’ entre 1972 e 1975, explorando o negócio durante três épocas balneares, após o que os sócios se desentenderam. O contrato estendia-se por cinco anos renováveis. Frederico Freire não fez parte desta sociedade porque estava a cumprir o serviço militar.

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Frederico esteve no Barreiro entre Dezembro de 1974 e Fevereiro de 1976, altura em que vendeu a sua quota na cervejaria e tomou de trespasse o ‘Ouriço’ a ‘Carlos da Cilita’, por solicitação e insistência deste. 

A escritura efectuou-se em Março desse ano. Frederico Freire e a sua mulher, Maria Gracinda Dias Matias de Freitas, ficaram proprietários da empresa. Frederico foi dono e gerente do ‘Ouriço’ entre 1974 e 1985. 

Frederico confidenciou-nos com emoção – ‘Quando morrer aquilo (‘O Ouriço’) vai comigo para a cova. Foi a minha grande paixão profissional.’

Depois de estar habituado a trabalhar com uma clientela seleccionada e elitista que frequentava a discoteca antes de 1974, Frederico Freire teve sérias dificuldades em adaptar-se às transformações sociais que surgiram após o 25 de Abril de 1974, o que o levou, anos mais tarde, a encarar e a concretizar a cedência das quotas a terceiros.

Durante a época de 1974 a 1985, embora o horário oficial terminasse às 3h, as noites do ‘Ouriço’ prolongavam-se até às 5-6h da manhã. O ‘Ouriço’ abria a época balnear a 1 de Maio e fechava a 5 de Outubro. Durante a gestão de Frederico Freire abriu também, durante o resto do ano, aos fins-de-semana.

Neste período surgiram os primeiros ‘disc-jockeys’: João Sá, Carlos ‘Secas’, ‘Zé Lagarto’, Quim Patacas, ‘Tetas’ (Luís Perdigão, de Torres Vedras), etc. 

Em 1985, Frederico Freire vendeu as quotas da empresa a Luís Jorge Fiúza Lopes e Celso Barros. Estes por sua vez alienaram a sociedade, em 1990, a João Paulo Franco (50%), actual proprietário da loja ‘Rústica’, e José Mário Jorge Pereira (50%), actual co-proprietário do restaurante ‘Canasta’. 

Em 1993, a sociedade passou a ser propriedade dos irmãos, José Mário Jorge Pereira e Leonel Pereira Carlos. 


Francisco Esteves, Set 2012

Nota: Texto baseado em entrevistas orais feitas a Carlos Gil de Sousa (14 e 18.02.2009), Frederico Freire (28.02.2009), Francisco José Valverde (15.08.2008), Isidoro Cacum (‘Carapau’) (13.03.2009), Mário Marques (14.03.2009), João Paulo Franco (04.04.2009). 

Este texto é WIP. Agradecemos que nos enviem informação fiável para fe1953@hotmail.com, a fim de podermos concluir este trabalho. 

© ONE, SGPS, 2012