ORIGEM DO "JAGOZ"

Jagoz – Cidadão português natural da vila da Ericeira. 


De acordo com José Leite de Vasconcelos, linguista, filólogo e etnógrafo português de enorme mérito (Etnografia Portuguesa Vol. III, 1941), os habitantes da Ericeira são jagozes, enquanto todos os outros habitantes do concelho de Mafra são saloios. 

Trata-se da única excepção no concelho de Mafra.

Em relação à origem etimológica e ao significado da palavra jagoz, o caso é muito bicudo para não dizermos cúbico.


Leite de Vasconcelos, no livro acima referido, afirma que jagoz talvez esteja relacionado com ‘jagodes’. Jagodes significa homem ordinário, sem crédito; pessoa importuna, incómoda, pandilha; troca-tintas; bigorrilha; estafermo; palerma; pessoa mal conformada (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, Amigos do Livro Editores, 1981). 

Apesar do muito respeito, consideração e admiração que temos por Leite de Vasconcelos, só podemos discordar desta sua sugestão e não é por sermos jagoz. 

Primeiro, o termo jagoz raramente é utilizado com significado desdenhoso, e ao contrário do que alguns afirmam não encontrámos qualquer documento que suporte a tese segundo a qual originalmente teria sido utilizado em sentido depreciativo; segundo, apesar da Ericeira, em tempos recuados, ter sido uma terra de pescadores muito pobres não significa que não fossem homens honrados.

Joaquim Fernando de Abreu Figaniere (1898-1962), ilustre historiador arabista, sugeriu a Joana Lopes Alves (A linguagem dos pescadores da Ericeira, Assembleia Distrital de Lisboa, 1965), que a palavra talvez tivesse origem no termo de origem árabe ou semita ‘iakob’.

António Bento Franco, jagoz ‘mayor’ e médico erudito, a quem muito devemos, sugeriu que jagoz proviria do árabe e significaria ‘o godo’.  Ora Godo (substantivo masculino) significa pedra pequena rolada; alça; povo da Germânia antiga; e indivíduo desse povo. Godo (adjectivo) significa relativo aos Godos; Diz-se do alfabeto organizado nos meados do século IV por Vúlfilas, bispo dos Godos na Dácia (Norte do Mar Negro) segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa atrás mencionado. Atendendo a estes significados, não podemos subscrever a sugestão deste nosso ilustre conterrâneo.

Leandro Miguel dos Santos, no livro intitulado História da Ericeira (Edição Fórum Ericeirense, 1998), afirma, ter encontrado em três livros de Baptismo, Casamento e Óbito, pertencentes ao Arquivo-Museu da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira, que Ana Maria, casada com José Lopes, era conhecida pela alcunha de ‘jagosa’. 

A referida alcunha surge pela primeira vez no registo de baptismo do seu primeiro filho, José, em 19 de Março de 1784. Não partilhamos contudo, o desenvolvimento de Leandro dos Santos sobre a origem e evolução do termo jagoz.

Em França nasceram, entre 1941 e 1990, 15 indivíduos, com o nome Jagoz, nos departamentos de Allier (5), Essonne (1), Val de Marne (5) e Paris (4). Este apelido surge registado em nove actas de Allier, entre 1670 e 1875, e em outras nove do Rhône, entre 1826 e 1870. 

Na Tunísia francesa existe o registo do casamento de um indivíduo chamado Alexis Jagoz em 1912.

Sem qualquer prova documental e não resistindo à nossa capacidade especulativa porque não terá este nome sido importado de França através de um individuo chamado Jagoz que tenha aportado à Ericeira? Não é difícil pensarmos que o referido indivíduo, a ter existido, teria sido recorrentemente apelidado o ‘Jagoz da Ericeira’. Tantas vezes lhe chamaram o ‘Jagoz da Ericeira’, que o nome terá permanecido e sido adoptado pelos ericeirenses. Deixamos aqui esta hipótese sem qualquer pretensão erudita. 


FRANCISCO ESTEVES, JULHO 2008

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